Amigo é Coisa pra se Guardar
Fazia muito tempo que eu não recebia tantos emails sobre um editorial como aconteceu com o texto do mês passado: FORRÓ X AMOR. Acho que a parcela de pessoas que de uma forma ou de outra tiveram histórias aqui é muito maior do que eu previra. Mais interessante ainda foi saber que não apenas os casos de amor chamaram atenção, mas também pessoas que relataram a mudança em suas vidas sociais que o forró proporcionou. Grupos, turmas, montes de gente que passaram a se conhecer, a serem amigos, viajar e tudo o que se refere ao, provavelmente, mais real e sincero relacionamento que uma vida permite, o da amizade, afinal é o único que escolhemos, diferentemente dos parentescos de sangue. Claro que não estou comparando com a intensidade dos relacionamentos filhos/pais e etc., mas apenas lembrando que amizades são opções de cada um.
Caetano Veloso tem uma frase brilhante sobre o tema na não menos brilhante música "Língua": "... a poesia está para a prosa assim como o amor está para a amizade, e quem há de negar que esta lhe é superior?"
Então, é sobre isso, sobre amizade que pretendo falar.
Se no editorial anterior relatei um caso muito bacana e emocionante sobre uma menina que havia encontrado o grande amor da vida dela, hoje tenho relatos em profusão de amizades construídas e firmadas no forró e mais diretamente no Canto da Ema.
Desde que abrimos a casa as gerações de forrozeiros se sucedem e as turmas formadas também. Não foi uma ou duas vezes que ouvimos relatos de pessoas combinando dentro do nosso salão viagens, festas, encontros e reuniões de todos os tipos. É fácil perceber grupos de amigos em diversos pontos do salão. Eu, que aos poucos vou conhecendo um ou outro frequentador mais assíduo, às vezes descubro que um conhece o outro, que conhece ainda um outro e que costuma sair com o um. São pessoas que nunca haviam se visto antes e se descobriram entre xotes, xaxados e baiões. Descobriram mais, uma cultura que os une e os faz gostar e querer coisas muito parecidas, enfim, uma aldeia que os une e integra; nada diferente do que sociólogos e antropólogos costumam relatar. A grande diferença é que parece que as pessoas do forró conseguem uma grande longevidade nessas relações, tem algo de inocente, algo como a amizade feita em escola no primário, faculdade ou em bairro, que nos faz perdurar nesses relacionamentos. Não sei bem explicar o motivo, talvez porque o forró já permita um contato direto assim que conhecemos, embora grande parte das amizades seja de pessoas do mesmo sexo e que não dançam umas com as outras.
Virou segunda casa, local de encontro, certeza de diversão, pois se, eventualmente, o show não está lá essas coisas (o que é difícil) tem os amigos para conversar, rir e quem sabe até dividir um pastel, uma caipirinha e tome conversa! Já até imagino como funciona a coisa: Vai ao Canto hoje?
Grande parte dos meus grandes amigos, pessoas com quem divido importantes eventos sociais vêm do forró, de clientes que frequentavam há 15 anos e até hoje somos amigos, pessoas com quem divido as alegrias comuns de amigos, as conquistas deles que me fazem vibrar, torcer, sofrer junto, coisas como casamentos, filhos, desempregos, empregos, desilusões amorosas, viagens e etc. Acho que vários dos leitores tiveram passagens iguais e é muito bom, não é?
Para mim, outro exemplo de amizade é de músicos que seguem trajetórias muito próximas, principalmente Sabiá e Virgulino que desde o início estão juntos batalhando essa virada do forró.
Quantos e quantos eventos já não passamos juntos, quantas viagens furadas entramos e quantos sucessos já dividimos. Amigo é um pouco assim, meio doido, acredita nos projetos um do outro mesmo quando não se tem a menor garantia de que algo irá dar certo. Nunca aconteceu de um amigo te convidar pra uma festa ou uma viagem que parece arriscadíssima em vários aspectos e você acaba topando e se dando mal? Às vezes pode dar certo, mas isso independe, porque de uma forma ou de outra vocês estão lá, juntos, para o que der e vier, na saúde e na doença, mesmo sem ser casamento. Será que não é? (É bom lembrar que nesses casos o Canto da Ema fica aberto até tarde e ainda podem salvar a noite.)
Amizade com ídolos também é outra coisa legal que me aconteceu. Ficar amigo de grandes e importantes músicos da nossa música só faz bem. Descobrimos quem é aquilo que a arte deles nos mostra, descobrimos quem às vezes eles superam como pessoa uma obra artística que parecia irretocável e insuperável. Descobrimos que ídolos são humanos, embora mesmo depois de anos de amizade nos pareça que não. Artista bom tem mesmo algo de mágico, algo de diferente, é como se fosse uma entidade que merece mesmo ser respeitada, mas que precisa do afago de amigos como qualquer um foi uma grande descoberta.
Outra amizade recorrente e surpreendente foi a com funcionários. Nós, assim como alguns frequentadores, acabamos por conviver mais com eles do que com pessoas queridas da família. Com alguns dividimos mesmo o dia a dia, hora a hora quase, e é muito bom. Eles estão lá, sempre, para os frequentadores preparados para receber e "servir" da melhor maneira possível. Quantas vezes não vemos rodinhas em torno de alguns conversando, procurando conselhos, despejando raivas, frustrações, alegrias e vivencias. Tudo isso porque passaram a ser amigos, que talvez não sejam os mesmos com quem saímos e marcamos jantares, mas que significam portos seguros em um local que nos dá segurança e acolhimento e que faz bem em dias de solidão ou de necessidade de extravasar alegrias, tristezas e todo o tipo de sentimento.
No final tudo isso é amizade, algo delicioso que o Canto da Ema e o forró ajudam a construir. Temos muito orgulho disso, temos muita alegria em saber que daqui as vidas mudam e pegam direções diferentes. É muita responsabilidade, por isso sempre fizemos uma opção familiar de ser, no cuidado com os músicos, com os funcionários e, principalmente, com os frequentadores (me recuso nesse momento a falar "clientes"), afinal são todos amigos, e amigos nós cuidamos.
Paulinho Rosa  (Mar/2010)