Memória Incompleta
Um país sem lembrança, um povo sem memória. Isso é sempre alardeado toda vez. Fatos, ações e acontecimentos da história de algo que foi tão importante se fazem necessários. Tal qual na política, nos esportes e em outros segmentos a cultura padece do mesmo problema: a falta de memória. E pior ainda, a falta de respeito.
No caso do forró temos verdadeiros bastiões em defesa dos tradicionais cantores de forró: Mestre Zinho, Edson Duarte, Benicio Guimarães, entre outros são idolatrados, reconhecidos e apreciados com todos os méritos, pois fizeram por merecer. Tem histórias de vida fantásticas e um acervo a serviço da música nordestina incontestável, com composições e gravações que nos fazem mexer mesmo que se estivéssemos dormindo.
Eles são apenas alguns exemplos, mas temos mais, muito mais que poderiam ser citados e ficaríamos orgulhosos do público de forró ser tão eficiente na defesa do legado passado.
Com relação ao presente a coisa nem sempre foi dessa forma. Embora sempre houvessem os fãs das novas gerações de músicos de forró, essa veneração era quase que sempre pelos músicos e quando era pelas músicas era muito mais por shows do que pelas melodias gravadas. Tanto isso é verdade que na maioria dos locais as discotecagens sempre as privilegiavam maciçamente em detrimento à formação e divulgação dos novos trabalhos, relegando o forró apenas à memória, sem quase dar chance ao futuro. Mesmo com bandas que fizeram muito sucesso como Forroçacana, Bicho de Pé, O Bando de Maria e outras que lotavam shows, pouco se via deles no que chamamos de música mecânica, ou seja, a música dos intervalos (Falamansa e Rastapé não entram nesse quesito pois ultrapassaram, e muito, a barreira do forró).
Recentemente, coisa de uns dois ou três anos para cá, algumas bandas e trios começaram a ter melhores resultados. Bicho de Pé vende mais CDs e DVDs, Dona Zefa se vira bem com seus CDs e etc. Algumas outras bandas, mas principalmente jovens trios, começam a ocupar o coração de ferrenhos forrozeiros, mesmo que sejam com músicas antigas daqueles que citei no início deste artigo.
A formação de trio ajuda bastante, pois alguns desavisados ainda insistem que só esta formação é que é realmente forró, desrespeitando a opinião até daquele que criou o ritmo e que tocava, invariavelmente, com outros instrumentos.
É claro que gosto é gosto, se a pessoa prefere trio com o som de apenas zabumba, sanfona e triângulo, tem mais é que ouvir os trios mesmo. Isso vale também pra quem prefere com guitarra, baixo e etc., mas deveria ser sempre por este motivo, o gostar, algo intuitivo e não por filosofia, principalmente se esta não for historicamente correta.
O fato é que tem gente nova ganhando espaço e isso é bom, mas paradoxalmente os mais tradicionais e por que não dizer importantes trios de São Paulo, aqueles responsáveis pelo reaparecimento do ritmo, quando muitos destes que agora desfilam como grandes sucessos apenas engatinhavam, estão sendo esquecidos e mais ainda desrespeitados por um público que se diz "forrozeiro".
Volto a dizer que gosto é gosto, se preferem o A ao B, que ouçam o A, mas repudiar e desrespeitar trios como Sabiá e Virgulino é no mínimo, ignorância. É não saber que quando jovens nem sonhavam em dançar e ouvir forró, quanto mais tocar o ritmo, estes 6 rapazes dos trios mencionados estavam ali, dando duro para manter e acabar com o preconceito do ritmo de Luiz Gonzaga. Quando muitos estavam nas fraldas, não foram poucas as vezes que Janaina Pereira (Bicho de Pé), Duani (ex Forroçacana), Tato (Falamansa) e tantos outros iam aos forrós da vida, ouvir Sabiá e Virgulino cantar várias destas mesmas músicas que estes desinformados "forrozeiros" julgam ter descoberto.
Isso já faz muito tempo, algo em torno de 20 anos em que esses dois trios lideraram esse movimento com a coragem de tocar músicas de todos estes ídolos antigos atuais. (Engraçado isso!) E mais que isso, lançar novas músicas para um mercado que apenas começava a aparecer.
Hoje com o caminho aberto é tudo mais fácil e a maior parte do público reconhece e respeita. Alguns gostam, outros não... como acontece com tudo, todos e em qualquer lugar.
Os jovens trios e bandas sabem bem dessa história e os têm como baluartes do ritmo. Lamento apenas algumas pessoas que se dizem "forrozeiros" e pouco sabem do que passou, e que a favor de um radicalismo cego tentam apagar ou calar algumas das nossas mais valiosas lembranças e ainda bem, realidades do ritmo. Não vão conseguir, pois eles estão aí e ainda vão estar por muito tempo!
Paulinho Rosa  (Dez/2009)