Arrumadinho
Adoro música e, como consequência, acabei trabalhando no meio. Teria sido mais tranquilo seguir minha vida acadêmica como pretenso sociólogo, quiçá presidente da república como o antecessor do Lula ou ainda, quem sabe, um advogado mal-ajambrado.Acho que não seria feliz, pois era muito difícil me concentrar em uma leitura de um Lévi-Strauss ou em um código qualquer, já que minha cabeça se desconcentrava ao menor som de um fole, de uma batida de zabumba e o tilintar de um triângulo.
Nunca me esforcei muito, pelo contrário, e acabei virando forrozeiro.
Aqui minha cabeça fervilha de idéias sonhos e vontades, como deve ser a de diversos frequentadores do Canto, mas não querendo me bajular consegui realizar algumas dessas vontades.
Uma delas aconteceu por volta de 1997. Confesso não lembrar a data exata, mas era por aí. Eu e meu antigo sócio sempre falávamos da vontade de fazer uma seleção de músicos variados de trios variados. Na época a oferta era bem inferior a de hoje. Só existiam ou só conhecíamos meia dúzia de trios e vários dos que existem hoje eram ainda crianças e, provavelmente, nem sonhavam com forró.
Desses papos acabei formatando um projeto que intitulei o estranho nome de ARRUMADINHO. O projeto era na verdade uma Jam Session de forró. A idéia tal qual a comida nordestina "ARRUMADINHO" em que tem o feijão de corda, a farofa, a salada e a charque e se come tudo junto e misturado. No forró faríamos o mesmo. Em um palco juntaríamos músicos de diferentes trios e bandas para que se encontrassem e sem ensaio tocassem os grandes clássicos do gênero que todos conheciam tão bem. SE no primeiro momento o objetivo era apenas esse, acabei por constatar que consegui muito mais, pois acabei conseguindo fazer com que diversos músicos se conhecessem, que diversas gerações se influenciassem uns aos outros e também passei a conhecer diversos músicos que estavam por aí desamparados e perdidos sem chance de aparecer no cenário musical.
Tivemos diversas experiências bacanas e vale aqui relatar algumas:
O primeiro ARRUMADINHO da história fora composto por Enoque do Trio Virgulino, Dió de Araújo do Trio Xamego e Aluízio Cruz do Trio Sabiá. Esses eram os três grandes trios do momento. A "torcida" pendia para um ou para outro conforme o vento e o gosto pessoal. Virgulino foi sempre o mais conhecido e famoso, com o trio Sabiá sempre por perto e o Trio Xamego como uma espécie de alternativa sempre viável e gostosa da época. A mistura dos três com o principal cantor de cada um, tendo a excelência de Enoque na Sanfona, Dió com o pedigree de zabumbeiro de Dominguinhos e o Aluízio, reconhecidamente uma das mais bonitas vozes do gênero no triângulo, fez com que o início do projeto fosse um sucesso total.
Em um dos ARRUMADINHOS que fizemos tinha Cicinho Alves na sanfona, Tiziu no zabumba e Coquinho no triângulo. Eram ainda praticamente desconhecidos do público forrozeiro, mas um cliente na época adorou e quis levá-los assim para um show em uma cidade do interior. Como não eram um trio e não tinham nem nome o Tiziu me ligou e perguntou se podia ir tocar com essa formação, como se fosse eu o dono. Achei graça e disse que sim, claro e ele retrucou pedido um nome para o trio. De cara sussurrei Araripe. Pronto, foi ali naquele ARRUMADINHO que se formou um dos melhores e mais queridos trios de hoje em dia.
Outro que debutou, na verdade retornou aos palcos com o ARRUMADINHO foi o querido Rouxinol Paraibano. Antes um cara sisudo que passeava vez por outra no meio dos forrós até que um dia quando descobri que também cantava, além de vender discos (trabalho que estava iniciando naquele momento), o convidei para participar de um de nossos eventos. Meio a contra gosto e de cara amarrada acabou aceitando e passando a ser reconhecido a partir dali, como uma verdadeira enciclopédia do ritmo.
Um dos ARRUMADINHOS mais famosos teve a presença de três ilustres convidados que se propuseram a comparecer diante da proposta altruísta para ajudar a viúva de Jackson do Pandeiro, Dona Neusa Flores. Dominguinhos, Lenine, e Chico César fizeram um ARRUMADINHO pra lá de concorrido e emocionante, quem viu, viu, quem não viu... Quem sabe um dia...
Em 1999 quando o Falamansa estourou e vendeu cerca de um milhão e meio de CDs, tive a ousadia de chamar o Tato para participar. Mesmo com a agenda entupida de shows, televisões, rádios e etc. não titubeou nem um minuto e disse que aceitava ir. Nem perguntou com quem iria tocar, apenas pediu que colocasse mais um integrante, pois preferia apenas cantar a tocar triângulo junto, já que ARRUMADINHO clássico era sempre com três músicos (zabumba, sanfona e triângulo) e sabendo disso, falou que viria sem cachê e que desse a parte dele para o quarto músico.
Entre as grandes surpresas tivemos um com participação de todo o Quinteto Violado, outro com Biliu de Campina e uma vez com oito sanfoneiros incluindo Dominguinhos e Osvaldinho, quando se deu início a outro projeto que realizamos de vez em quando, que é o ENCONTRO DE SANFONEIROS.
São muitas as histórias que se passaram em tantos anos de projeto. Eles começaram no Remelexo, quando eu lá trabalhava. Depois, o dono não quis mais abrir as segundas e levamos o ARRUMADINHO para o KVA. Lá teve longa duração e mais tarde quando mudaram os diretores da casa e os novos animados com o resultado, mas não com as divisões de eventuais lucros, nos colocaram pra fora e recriaram o projeto com o nome de "KVA Convida".
Refiz o ARRUMADINHO algumas vezes no Canto da Ema, mas o nome ganhou vida própria assim como o projeto e nem sempre seguindo exatamente o modelo que concebi, hoje temos ARRUMADINHOS por quase todo o país, um nome que virou quase sinônimo desse tipo de projeto de Jam Session de forró.
Confesso que no início fiquei com inveja, mas hoje acho bem legal que aconteça.
É algo a mais para o forró, é uma contribuição significativa e importante para o ritmo. Basta ver as histórias acima.
Na verdade tem muitas e muitas ainda irão acontecer.
Mas o que ninguém nunca soube é que os verdadeiros ARRUMADINHOS aconteciam nos camarins, pois ali se juntavam, não apenas os três titulares da semana, mas também diversos canjeiros que invariavelmente apareciam e ficavam conosco lá dentro tocando, cantando e conversando.
Aprendi mais ali, naqueles pequenos espaços lotados de músicos do que com todos os livros e biografias a respeito do tema que já li. Essa experiência, que me desculpem os leitores, tenho guardadas só para mim e infelizmente não tenho como revelar. Quem sabe um dia...
Paulinho Rosa  (Out/2009)