Uma Certa Confusão
Tenho sido abordado, de novo, para conversar sobre a discotecagem do Canto da Ema. Desde que a casa abriu a questão é a mesma e, durante um período em que tivemos um fórum de discussões no site com grande participação dos frequentadores, as questões e reclamações eram tão frequentes que acabei por escrever um editorial com o sugestivo nome de: "Canto da Ema, a Pior Discotecagem do Mundo". Não vou aqui discorrer novamente sobre o tema, e deixo o link para quem quiser e tiver curiosidade de ler e entender o nosso posicionamento diante do assunto (Junho/2006: Canto da Ema - A Pior Discotecagem do Mundo). Mas quero aproveitar o momento e o assunto para levantar questões pertinentes sobre a continuação e crescimento do forró e a importância da discotecagem.
O Canto da Ema é muitas vezes colocado como se não fosse um forró que teria o nome de "raiz", cabendo a alguns de nossos concorrentes o direito de assumir uma postura mais, digamos ligada a tradição do ritmo do que nós.
Pensei muito sobre o assunto e acho que existe uma certa confusão quanto a isso. Primeiro que não é só a discotecagem que determina o quanto é ligada a origem do ritmo que uma casa é, e mesmo que seja, o critério deveria ser quem toca mais Luiz Gonzaga, Jackson, Marinês e etc. que os outros e não alguns outros importantes músicos do gênero, mas de segundo escalão do ritmo. Muito mais importante que a discotecagem, talvez seja interessante observar quem já esteve no palco de cada espaço. Vejamos: além de Dominguinhos (sempre), alguns outros importantes representantes dos pioneiros do ritmo aqui tocaram, cantaram e frequentaram a casa, como Marinês e Chiquinha Gonzaga, irmã de Luiz e integrante dos 7 Gonzagas; Trio Nordestino com o ainda saudoso Coroné; Carmelia Alves, a eterna Rainha do Baião; Os Três do Nordeste, Mestre Zinho, Genival Lacerda, o senador do rojão; Osvaldinho do Acordeon, Banda de Pífanos de Caruaru, Anastácia e mais recentemente Joquinha Gonzaga, que embora não seja dos precursores do forró é sobrinho direto de Luiz Gonzaga.
Nós nos orgulhamos muito dessas presenças, mas também nos orgulhamos de dizer que temos muita gente nova por aqui, muitos trios e bandas que estão começando e galgando seus caminhos. Além de trios, nos deixa muito felizes as bandas que fazem leituras diferenciadas do ritmo e com grande qualidade, como fizeram outrora Arleno Farias, Triângulo Caraíva, O Bando de Maria e etc., assim como fazem hoje Bicho de Pé e o Peixe Elétrico, quando resolvem tocar forró, como o fazem aqui no Canto da Ema.
Sempre enfatizo a necessidade da renovação do ritmo como medida de sobrevivência. Não que o forró corra qualquer risco de desaparecer, mas é muito importante renovar, sem esquecer e sempre relembrar e manter o passado.
Também tivemos grandes revelações do nordeste como Silvério Pessoa e Clã Brasil e músicos consagrados como Flavio José, Santanna e Adelmario Coelho.
Fizemos algumas vezes encontros de sanfoneiros, sempre atentos a essa regra de valorização dos grandes ícones como Dominguinhos, Osvaldinho, Zé Calixto e Ferragutti, e mostrando os novos valores como Clayton Gama, Marcelo Jeneci, Jonas Virgulino e Jucelino.
Se não é apenas a discotecagem que define a posição da casa a outra questão seria o público. O Canto da Ema tem todo interesse em trazer sempre novas pessoas para conhecer o forró e não apenas os já forrozeiros. Dizem, e é verdade, vem gente de salto alto, pessoas que nunca prestaram atenção na sanfona e que caíram aqui de pára-quedas, gente que veio pela "balada" e que mal sabe dançar. Temos interesse em todos e não abrimos mão de tê-los aqui no nosso salão. Todos um dia já vieram pela primeira vez ao forró e tentaremos conquistar cada um para que vire um forrozeiro (sem salto alto de preferência). Por isso a opção por uma discotecagem mais democrática, com um pouco de tudo e das diferentes gerações, com músicos ligados a origem do ritmo, com gerações mais novas, músicos ligados a outros ritmos, mas que também tocam forró e as revelações recentes, tudo isso em uma divisão matemática entre forrós, xotes, baiões, cocos, arrastapés e xaxados, um pouco de cada para todo mundo ficar feliz e triste, de acordo com o gosto de cada um.
Não acho alguém mais forrozeiro por gostar e conhecer Jacinto Limeira do que alguém que ouve Bicho de Pé, afinal é tudo forró e o gosto é de cada um.
O mais importante é saber que o ritmo que amamos tem uma variedade fantástica, tão grande que permite grandes diferenças em pessoas que frequentam os mesmos lugares, com teóricos mesmos objetivos, afinal é tudo forró e nos encontramos pra festejar e nos alegrar ao som de uma única origem: Luiz Gonzaga.
Ele mesmo variava entre trios e bandas, tocava com trio, mas também com regional ou guitarra, bateria e baixo, dependo do caso e do local. Cantou com Elba Ramalho e Gal Costa, mas também com João Silva e Jorge de Altinho. Se ele que começou tudo, tudo aceitava, por que nós, seus seguidores, faremos diferente?
O forró sofre e sofreu tanto preconceito durante tanto tempo que acho que nós que amamos o ritmo não podemos nos dispersar e ficar procurando picuinha, se alguém gosta mais de Edson Duarte e outro de Gonzaga e outro ainda de Falamansa, tudo bem, cada um escolhe o seu, pois estamos falando tudo do mesmo ritmo. O nosso problema são as bandas que usam o nome "forró" e nada tem a ver com o que Gonzaga criou, estes sim não tem direito nem ao nome forró, mas aí já é uma outra história.
Paulinho Rosa  (Ago/2009)