É Noite de São João
Está acabando mais um mês de junho. Para nós forrozeiros o mês de São João, de São Pedro e Santo Antonio. Mês de festas juninas, tão esquecidas, mas sempre tão legais. São poucas, mas quem vai a alguma sempre gosta. Não tem como não se deliciar com os quitutes típicos: milho verde (assado de preferência), canjica (mungunzá), curau (canjica), pamonha, pipoca, pinhão, paçoca, pé de moleque, etc. Não tem como não se divertir ao colocar as vestimentas de matuto, pintar bigode, fazer sarda, se encher de chita, camisa xadrez e uns buracos aqui e ali, embora nunca ninguém tenha me contado porquê o "caipira" tem que ser esfarrapado. Tomar quentão e vinho quente, embora seja uma coisa mais do Espírito Santo pra baixo, também é muito bom. Mas o auge mesmo, o grande momento, aquele em que todos nos refestelamos e atingimos o clímax de excitação, alegria e muita risada é durante a quadrilha. Pense numa coisa boa!
A quadrilha é o momento de glória em que quase todos participam e se soltam, esquecendo as vergonhas e se lembrando de quanto somos caipiras e o quanto isso é bom. Mesmo quem nunca dança costuma participar da brincadeira, com passos marcados, uma noiva e um noivo por seguir e uma certa bagunça premeditada que faz tão bem. Pouco importa se a música é quase sempre a mesma, que pode demorar horas, ela continua quase sempre ali, se repetindo compasso por compasso e todo mundo acha bom. As inibições somem junto com a dança folclórica, como se a cada volteio despisse um pouquinho mais a máscara que cada um costuma trazer para as noites comuns de forró e dali, nu, diante da brincadeira de roda tão infantil e tradicional. Aos poucos os rebolados aumentam e as pessoas se alegram mais e mais a ponto de esquecerem que em algum momento, seja no galope, seja no desfile, seja em qual passo for, ela estará ali, diante de todos, um pouco ridículo, um pouco desajeitado, mas que importância teria? Ao lado de tantos do mesmo modo.
E segue a quadrilha! Vem o galope em passos engraçados, o serrote com sua confusão habitual, até chegar no caracol, quando o "caus" se instala com as pessoas enroladas em um mar de gente rodando, dançando e rindo.
Quando chega a hora do túnel é o grande momento. Quer brincadeira mais infantil e ingênua do que passar por baixo de pessoas com mão dadas em cima da sua cabeça? É quase uma montanha russa, um tobogã, um passeio de carrossel. Por que é tão bom? E se é tão bom, por que não o ano inteiro? Por que achamos tanta graça nesse momento dos festejos juninos? Qual a mágica ou o milagre dos três Santos principais padroeiros dessas festas?
Mais bobo, mais ingênuo e quase tão divertido é ouvir que a ponte quebrou, mesmo sabendo que era mentira. E se começa a chuva? O terreiro, o quintal, o salão, a rua vira uma gritaria, mas logo alguém trata de dizer que já passou. Que medo da cobra! Que faz as mulheres se jogarem nos colos de seus parceiros como se fosse a coisa mais aterrorizadora do mundo. Que bom que ela passa logo e podemos seguir adiante com o passeio na roça. Por fim, o grande baile e o adeus a Santo Antonio, São Pedro e São João.
Não sei por que é tão bom, nem sei se alguém sabe explicar. Será que algum sociólogo, psicólogo ou folclorista o sabe? Explicado ou não, é sempre um sucesso.
Bem que as pessoas, a mídia, os empresários e o governo poderiam reparar nisso tudo e ajudarmos a ter mais festas desse tipo, quem sabe grandes festas de rua, já que existe até uma lei em São Paulo propondo uma para entrar no calendário de eventos do município. Enquanto isso não acontece, algumas empresas, paróquias, grupos de amigos, clubes e casas de forró fazem seus pequenos arraiais.
Este ano, no Canto da Ema, tivemos cinco, duas que nós organizamos e três de eventos que realizamos para comunidades e empresas. Em todas elas a mesma alegria aconteceu, a cada quadrilha repetiam-se os sorrisos e a catarse diante da sanfona, do zabumba e do triângulo, em uma dança de roda que pretendemos repetir mais e mais. Quem sabe uma "festa julina"? Alguém quer?
Nas que fizemos só faltou a fogueira, quem sabe o ano que vem... nosso forró.
Paulinho Rosa  (Jul/2009)