Coisa de Santo!
"Já faz três noites que pro norte relampeia,
A asa branca ouvindo o ronco do trovão,
Já bateu asas e voltou pro meu sertão
Ai ai eu vou me embora vou cuidar da plantação."

É quase isso que ta acontecendo no nordeste brasileiro de novo. Embora o litoral tenha sido inundado por água que não acaba mais, o sertão continua seco e sem verde, ao menos, parte da rica cultura recomeça a aparecer, como se estivéssemos ouvindo realmente o ronco do trovão. Mas dessa vez é o som da sanfona, reagindo à seca imposta pelos gigantes comerciantes da música que durante as últimas décadas nos impuseram seus produtos e dominaram a maior festa nordestina.
Nem quero entrar no mérito de juízo de valor. Se são bons ou ruins estes produtos é o que menos importa, mas que me desculpem os sertanejos, os calipsos, os axés e até aqueles que usam indevidamente o nome "forró", mas festa junina, festa de Santo Antonio, São Pedro e São João é época de forró.
Lamentavelmente o povo da Bahia pra baixo muito pouco conhece desses festejos, no máximo uma quermesse aqui, uma igreja fazendo festa ali, as escolas fazem com seus alunos seus pequenos arraiais, mas nada lembra nem de longe o que acontece no nordeste brasileiro, sobretudo no interior e nas pequenas cidades. Nessas, as casas quase que todas acendem suas fogueiras nas datas mais importantes e todos saem vestidos para dançar forró, quadrilha e comer as comidas de milho: mungunzá, milho cozido, pamonha e canjica. É uma festa fantástica, cheia de significados e simpatias, com um pé no catolicismo e outro meio pagão, cheia de histórias e personagens e coisas características: tem padre, tem noivo, noiva, casamento matuto, pau de sebo, bacamarteiro e muito, muito forró.
No interior os festejos mais famosos são, sem dúvida, os de Caruaru e Campina Grande, seguidos de perto por Aracaju com o Forrócaju. As duas primeiras disputam acirradamente em uma grande rivalidade o público de quase todo o nordeste, que costuma fazer uma peregrinação similar, se não maior do que acontece no carnaval com Salvador e Olinda. A briga fica por conta do título de quem é a Capital do Forró ou quem tem o maior São João do Mundo, mas aí vem a grande questão: como "Capital do Forró" ou como almejar se destacar na festa de São João se a programação em grande parte era de cantores e músicos de outro ritmos?
Na ânsia de se sair campeão, acontecia como sempre acontece nesse país, passa-se por cima de tudo esquecendo das questões tradicionais dessa festa tão bonita. Foi um tal de ter dupla sertaneja, banda de Axé e os Magníficos, Cebolas Cortadas e Mastruzes de todo o jeito. Lógico que no meio ainda um ou outro representante do forró como Dominguinhos, Marinês, Elba Ramalho, Genival Lacerda ou mesmo Zé Ramalho e Alceu Valença acabavam aparecendo, mas nem sempre nos melhores dias, melhores palcos e com mais destaques nas rádios e publicidade. Como os donos das rádios e retransmissoras eram os mesmos donos dessas bandas de pseudo forró, acabavam por ter uma participação muito maior do que o ritmo criado por Gonzaga.
Mas, como disse no início, já começa relampear. Os bons ventos do nordeste trouxeram alviçareiras notícias sobre o que vai acontecer este ano em terras pernambucanas. Dizem as más línguas que Caruaru preocupada com o crescimento de algumas festas juninas como por exemplo, as de Arcoverde que apostavam no forró de verdade, resolveu este ano fazer uma programação basicamente de forró, dessa vez com a participação quase total de artistas súditos do Rei do Baião, trazendo de volta a verdadeira trilha sonora desta que é uma das principais festas brasileiras. Não importa o motivo, fato é que de um jeito ou de outro o forró conquista de volta um espaço que sempre deveria ser seu.
Uma ou outra atração ainda foge daquilo que chamamos de forró, mas não há problema, eu, pelo menos, não vejo nada de errado em ter uma pequena parcela de ritmos diferentes durante tantos dias de festa como são os festejos juninos citados, apenas acho que eles deveriam nomear corretamente o que tocam e não usar erroneamente um título que não se justifica.
Curiosamente aqui em São Paulo as coisas também parecem receber uma lufada de otimismo, nunca como este ano tantas empresas nos procuraram para fazer festas juninas, aqui ou apenas para arrumarmos bandas e trios para seus eventos. Recentemente a Vejinha São Paulo, importante guia cultural, gastronômico e de compras da cidade nos procurou a respeito do mesmo tema. O Miltinho Edilberto, o Trio Dona Zefa e o Dona Flor fizeram giros pela Europa e o Bicho de Pé andou tocando em novelas.
É, parece que o forró esta cada vez mais forte. Será que é coisa de santo? Sei não, mas, por via das dúvidas Viva Santo Antonio, São Pedro e São João!

Alicerce

Quase sempre falamos aqui do Canto da Ema, do forró, das músicas, músicos, festas e coisas afins. Lamentavelmente esquecemos de tratar das pessoas que carregam o piano, no caso de barriga, como é também conhecida a sanfona, para que tudo funcione.
O Canto da Ema tem 25 carregadores que fazem esse piano de barriga funcionar. Todos são importantes, cada um com uma parcela muito grande nessa condução quase sempre tão harmônica e feliz. Um puxa o fole, outro fica nos teclados, alguns nos pitoquinhos dos baixos. Tem também aqueles que cantam e os que seguram isso tudo, no fim dá um forró bom danado. Não sei se podemos dizer o velho lugar comum e chamar exatamente uma família, mas temos imenso orgulho dessa equipe.
Desde que a casa abriu tínhamos muitas dúvidas e pouquíssimas certezas. Dessas, sabíamos que seríamos uma casa de forró bem tradicional, que respeitaríamos o público e que pudéssemos "durar" muitos anos fazendo o melhor que fosse possível. Para isso seria necessária uma grande equipe, afinal é gente que faz as coisas acontecerem, e saímos à procura para cada setor. Foi uma busca complicada para acertar e contratar pessoas para cada quadro. Apena um nós tínhamos absoluta certeza desde o início, era de um cara grande, pescoçudo, forte, meio mal humorado para alguns, com cara de bravo, parecia um homem mau, mas nós que o conhecíamos de verdade sabíamos quem era fiel, gente boa demais, companheiro, ingênuo como uma criança, trabalhador, justo, correto e, talvez o que mais o caracterize seja a palavra amigo. Os frequentadores tinham medo, reclamavam, diziam que era grosso. Mal sabem que se derretia todo para falar de sua filha, que adorava sair e se divertir com amigos e era amigo.
Quantas e quantas pessoas ajudou nesse tempo, muitas o traíram e ele se sentia mal por isso. Confiava muito nas pessoas e mesmo não amando forró, vestiu a camisa do Canto da Ema como fazia com o seu querido rock'n'roll.
Comigo foram 15 anos de convivência, com muito trabalho, algumas baladas e viagens em que rimos e nos divertimos muito. Discutimos às vezes, mas sempre o respeitei e vice versa. No Canto da Ema fez seu papel, amados por muitos, respeitado por outros, temido por alguns, era um dos principais pilares desta engrenagem.
Esse cara grande, não só no tamanho foi como aquelas arvores gigantes, lindas, eficientes nos papéis de ajudar a purificar o ar, fazer sobra e dar frutos, mas mesmo enorme não resiste aos cupins quando estes a corroem. Foi assim, exatamente dessa forma que perdemos parte do nosso alicerce.
Grande amigo esteja onde estiver dessa vez vai poder escutar rock o tempo todo, mas daí de cima, dê uma mãozinha pro nosso forró.
Saudades!!!!!!
Paulinho Rosa  (Jun/2009)