As Três Últimas de Hoje
Volta e meia alguém reclama quando anunciamos as três últimas músicas da noite, prenuncio do início do fim de mais um forró.
Sempre acham que caberiam ali mais algumas músicas, quem sabe mais uma ou duas horinhas de forró, de divertimento, de chance de estar colado a alguém ou uma desesperada tentativa de que a noite não acabe ou o dia não comece. Aqueles momentos derradeiros para saciar completamente a balada. Não cabe aqui uma discussão filosófica sobre a questão a respeito da "finitude" das coisas, mas apenas um breve passeio pelo tema.
Fim é algo importante. Se pensarmos na vida já vemos isso, que graça teria sermos imortais? O fim é que motiva tudo. Queremos aproveitar a vida e ter bons momentos. Às vezes exageramos na dose porque sabemos que ela passa e um dia acaba, e é muito bom que seja assim. Sem fim as coisas perdem a importância, o valor e até o sabor. Imagina um chocolate sem fim? Seria enjoativo. O fim é, no fundo, um gosto de "quero mais". Não deixar as coisas irem até a derrocada final, até o último suspiro, até perder o gosto, o charme e a atração, é o que valoriza essas mesmas coisas. Se o forró ficasse mais uma ou duas horas, todos teriam saído extenuados, cansados, saciados de forró e voltariam sei lá quando. Acabar antes disso alimenta a fantasia do próximo, pois ficou aquela vontade de mais uma dança, mais uma música.
Quando comemos até encher o bucho ficamos meio enjoados e saturados daquela comida. Se, ao contrário, comermos só um pedaço daquela torta deliciosa, ficará o sabor no pensamento, iremos embora morrendo de vontade e sonharemos com ela, sentiremos o gosto na boca, idealizaremos seu paladar até não mais poder, para quando chegar o dia de comê-la, nos deleitarmos de maneira arrebatadora.
Percebemos muito isso no domingo, dia em que o forró no Canto da Ema acaba mais cedo. Quando finda a noite e a última canção "De Quarta a Domingo no Canto da Ema" revela seus derradeiros acordes a casa invariavelmente está cheia. A festa acaba no ápice, assim como fez Pelé com sua carreira e deixou tanta saudade, como James Dean que faleceu quando estava em franca ascensão e deixou uma legião de viúvas (os). O Canto da Ema na sua domingueira repete tal trajetória, guardadas as devidas proporções, semanalmente. Quem ainda estava na casa temos quase certeza que irá voltar dali a sete dias.
Lógico que nem tudo que finda é bom ou necessário, alguém, com certeza estará pensando: "e o amor?". Bom, este torcemos para que seja eterno, mas parafraseando o grande Vinícius de Moraes "que seja eterno enquanto dure". Não que eu não seja um romântico, que não acredite em "felizes para sempre", mas a vida é longa e o amor muda: muda de jeito, muda de forma, de intensidade, de modo de se apresentar e de como é recebido. Ele pode não acabar, tomara que nunca acabe, mas até o fim de um relacionamento tem seu charme e seus atrativos, caso contrário não teríamos tantas músicas que falam de amor que acabou, amor que queremos reatar, amor perdido, amor reencontrado e etc. Um amigo meu foi casar e queria uma música otimista em relação ao amor e teve enorme dificuldade em encontrar, pois a imensa maioria só falava de amores mal sucedidos ou a procura de reverter o insucesso.
Até aí o fim se mostra interessante e canalizador da criatividade de poetas, músicos e letristas. Mas mesmo torcendo para que todos encontrem seus amores eternos, quem pode negar o quanto é bom o reatamento de uma relação. Sabe quando acabamos para voltar uma semana depois? Às vezes são os melhores momentos, breves luas de mel, breves reinícios de namoros, geralmente as fases de maior paixão. Ou seja, amores eternos têm vários pequenos fins. Desde que reatemos, não é bom?
O forró é assim também, toda noite temos um pequeno fim para reatarmos com todos vocês no próximo encontro.
Espero que isso amenize um pouco a dor do rompimento que fazemos todas as noites quando fechamos a casa no horário marcado. E esperamos sinceramente que venham todos aproveitar até as três últimas de hoje!
Paulinho Rosa  (Mar/2009)