Cabra Macho
Cabra Macho Quem é macho de verdade? John Wayne que saia atirando pra tudo que é lado e enfrentava todo tipo de bandido ou Charles Bronson, que dava soco e pernada em um monte de gente. Jece Valadão, o grande machão brasileiro ostentava o título muito mais por atitudes machistas do que por ações de macho efetivamente.
Macho pra mim é um cara que faz algo mais ou menos assim: Descobre que tem câncer e passa a ter uma série de inconveniências físicas até para andar, depois sofre um enfarto e, pra não dizer que desgraça pouca é bobagem, ainda acaba com uma paralisia facial. E mesmo assim, com tudo isso, com boca torta e tudo mais, não se esconde e nem se recolhe a auto-piedade ou fica reclamando do destino, aceita o desafio da vida, ou da morte, dependendo do ponto de vista, e sai para fazer o que sempre fez, ou seja, abrir a boca e soltar o vozeirão.
Erivan Alves de Almeida, o Mestre Zinho, é o macho desta história. Aos 63 anos depois de 8 anos de "Os Três do Nordeste" e 8 LPs, mais 22 discos solo, esse alagoano de Rio Largo, mostrou que encara qualquer parada mesmo. Pega a vaidade, empurra pro lado, veste seu paramento de artista, e sai com seu instrumento de trabalho, aquela voz potente demais que o acompanha desde sempre.
Mais uma vez, no Canto da Ema, ele se mostrou como sempre, forte, decidido e carinhoso, um músico que conhece suas qualidades e defeitos, que entende de música e conhece quase todo o repertório de forró desses quase 30 anos de carreira. Ele bem sabe que neste momento sua capacidade está ligeiramente afetada por tantos infortúnios, mas briga sempre pra continuar, em nome da música, dos seus incontáveis fãs e, por que não dizer da necessidade de vida, de ganhar o pão de cada dia.
Ainda, quando do câncer, teve que carregar uma incômoda bolsinha com tubos ligados ao seu corpo e nem por isso deixou de cantar. Teve enfarte, seu coração titubeou, mas sua voz não, e lá foi ele para os palcos em mais uma jornada de duas, três, quatro horas se assim o deixarem.
Por fim foi a vez do destino tentar derrotá-lo através de uma das partes mais importantes do seu instrumento, sua boca, e nem assim, nem com ela virada pro lado conseguiram calá-lo. Zinho três dias após o acontecido subiu ao palco e cantou... pouco, não conseguiu e chorou. Chorou junto com seu público que sentia o quanto isso doía àquele negrão forte, mas naquele momento no chão.
Era só o primeiro assalto. Ele voltou pouco depois e fez um novo show. Cantou pouco, mas cantou. Muito aquém do que queria e do que o coração pedia, mas era o que seu corpo o permitia.
Mas continuou, com ajuda de fisioterapeutas e da sua inesgotável força de vontade e garra continuo cantando e fazendo apresentações. Está cada vez melhor e em breve deverá estar 100% de novo.
Aqui no Canto faltou um pouquinho daquela potência e categoria que o fizeram de Zinho a Mestre Zinho. Ele mesmo reclamou de si próprio lamentando a dificuldade com os agudos. Os graves, segundo ele, já estão todos lá.
Temos certeza que ele conseguirá, afinal é macho de verdade, mas, dessa vez, além de ser um legítimo cabra macho, vai precisar ter um pouco da paciência de monge.
Nós vamos esperar!!!
Paulinho Rosa  (Nov/2008)