Um Frequentador Muito Especial
Eita mundo variado. Como tem figura por aí. Se pegarmos apenas o nosso mundinho aqui do Canto da Ema e um dia formos tentar relatar os tipos que freqüentam a casa, morreríamos de rir, tal a diversidade, forma, jeito, design, vestimenta e comportamento de cada um. Tem animados, tem bravos, tem chatos, tem legais, os espaçosos, os tímidos, os com cara de bravo, as arrumadas, as maluquinhas, as lindas, as quase lindas, as dançarinas, as duras, os duros, os que só querem as "gatas", aquele que só procuram as "fortinhas", etc., etc., etc. Aja multiplicidade!
Alguns desses tipos marcam de forma definitiva a casa e mesmo que nos abandonem por qualquer motivo que seja (casamento, namoro, filhos, trabalho e etc.), continuam em nossa memória e vez por outra lembramos com carinho e saudade.
Uma vez, aliás, bem antes do Canto da Ema existir apareceu um desses tipos. Daqueles que todo mundo percebe, pois ele não deixava se fazer despercebido, não que fosse um amostrado, exibido ou coisa parecida, mas tal era a simpatia, alegria e felicidade em que se encontrava no forró, que todos o percebiam, não havia como.
Quando abrimos o Canto da Ema ele logo sublocou a casa como sua segunda morada e passou a aparecer por aqui muito mais que os donos às vezes. E era fácil percebê-lo: baixinho, camiseta regata do Canto da Ema (que vestia com orgulho), bermuda, tênis ou sapato de camurça escondendo parte de uma meia branca. Quase sempre a barba por fazer, pelos do peito saltando pelo decote, um sorriso contagiante e um ronco intercalado nesse sorriso. Sem dúvida foi durante muito tempo uma das pessoas mais queridas da casa, pois sim, nós o considerávamos da casa, tanto que aos poucos passou a ser também o fornecedor de uma das bebidas que vendíamos em nosso bar. Ele não era da área, mas creio que achou uma forma de ganhar algum dinheiro, em tempos difíceis, e poder, ao mesmo tempo, estar sempre por perto.
Aos domingos, às vezes, saía do Canto da Ema e tal era a fome por forró que corria para o Remelexo; no meio do caminho trocava a camiseta e depois me contava às gargalhadas que uma das vezes esqueceu e entrou lá com a camiseta do Canto. Conhecido lá também, a história não caiu muito bem.
Amigo de todos os músicos e praticamente todos os funcionários era figura carimbada na pista, onde dançava de forma saltitante, com alguns rodopios bem ensaiados e um chutinho no ar, marca registrada, que era só seu. Rodopiava o salão inteiro, fazendo a alegria de tantas garotinhas, moças, meninas, mulheres e senhoras que vinham à casa, pois ele era assim, totalmente sem maldade, dançava com todas independente de estética ou qualquer pré conceito estabelecido e determinado, bastava ser mulher e estar afim de se divertir, lá ia ele.
Mais tarde, a vida começou a tomar rumos mais sérios, embora ainda menino, mas com mais idade, continuava a vir ao forró, mas com menos assiduidade. O namoro que ia voltava, ia voltava com o outro grande amor de sua vida (já que um era o forró) tomou ares de casamento e a espera da herdeira de toda aquela alegria e simpatia estava para chegar e ele precisou de um emprego mais sólido, mais cotidiano e, sobretudo que desse garantia à nova família recém criada.
O primeiro lugar que procurou foi o Canto da Ema, onde tinha amigos e era um lugar em que se sentia bem. Virou caixa, um pouco faz tudo, um pouco parte do Canto da Ema. Não o víamos mais na pista, apenas trabalhando. Sabíamos que devia ser duro para ele ouvir o forró e não poder dançar, mas estava por perto, no lugar que se sentia bem, se esforçando para dar suporte a mais nova jóia de sua vida.
Nunca deixou a simpatia de lado, continuou sendo a mesma pessoa cativante de sempre só que do lado de cá, não mais dançando. Conquistou a todos na casa, mesmo aqueles que não o conheciam ainda tão bem.
Esse é apenas um dos freqüentadores que merecem ser sempre lembrados, existem outros, mas, que eles nos desculpem, não são menos importantes, nem mais, apenas relatamos um que sempre, desde o início, desde o primeiro dia, veio ao Canto da Ema e que sempre olhou e de uma certa forma ajudou a cuidar da casa e com certeza continuará!

(Homenagem a Cacá)
Paulinho Rosa  (Set/2008)