Lei Seca
Que culpa temos nós se o governo e a polícia não fiscalizavam?
Hoje, diante de números realmente significativos e auspiciosos, os governantes posam de salvadores da nossa integridade física frente a barbárie procedente da união carro e álcool. Na verdade deviam é pedir desculpas e assumir anos de negligência de fiscalização, pois se o tivessem feito como sempre mandou a lei, o número de vidas perdidas teria sido bem menor.
Não é necessária essa tolerância zero para que as coisas funcionem, o 0,6% da lei anterior, devidamente fiscalizado, já teria surtido o mesmo efeito.
Nesse momento esquecemos disso tudo e enxergamos como eles querem:
Caíram os acidentes automobilísticos e conseqüentemente as mortes e feridos. Muito menos jovens se machucaram, menos mãe e pais se afligiram e os hospitais puderam dar mais atenção a enfermidades reais e não àquelas provenientes de excessos irresponsáveis.
Como ir contra uma lei desta? Mesmo sendo dono de bar, mesmo tendo o consumo de meu estabelecimento caindo pela metade, mesmo que tenha que perder um ou dois funcionários devido a queda de receita, mesmo vendo diversos colegas desesperados, pois investiram em seus bares e restaurantes e hoje o consumo é basicamente de águas e sucos, acho que a lei é válida, mas não dessa forma!
Confesso que não entendo muito por que a necessidade de uma lei tolerância zero, se o que sempre faltou na lei tolerância média foi fiscalização.
Sou muito a favor de todas as leis "a favor da vida". Fui a favor do desarmamento e de todas as ações que visam diminuir violência ou qualquer tipo de reação que possa machucar alguém. Mas, ao mesmo tempo em que tenho tais princípios, tenho muita vontade de ir à casa de amigos e tomar uma caipirinha durante um bom papo. Fico muito feliz quando vou a um jantar e posso tomar um vinho com amigos ou, quando estou no forró, tomar uma ou outra bebidinha de forma contida e tranqüila. Nada pra ficar bêbado ou colocar minha própria vida que tanto amo em risco ou, pior ainda, colocar a vida de alguém que nada tem a ver com minhas sutis vontades.
Dizem os especialistas que qualquer gota de álcool pode, dependendo da pessoa, ser o suficiente para alterar reflexos e ações de motoristas.
Mesmo assim, com todos os argumentos contra e quase nenhum pró acho que a lei esta mal colocada.
Como tolher todas as pessoas de repente, sem nenhum tipo de ajuda acessória, de se divertirem. Não que só se possa se divertir tomando algo com álcool, odeio esse tipo de dependência, mas convenhamos, sair para ir a um bar e ficar tomando suco de abacaxi com hortelã é dose pra leão.
Se não podemos beber e dirigir para evitar acidentes, que venha a lei, mas venha com ônibus 24 horas, metrô a noite toda e uma bandeira 2 de táxi ao contrário, ou seja, mais barata, para que possamos sair e ter como voltar sem ter que dirigir. Seria bom que em vez de ser apenas paternalista, a lei proibindo as pessoas de beber, como os pais fazem diante de filhos, que elas sejam punitivas para que cada um assuma suas responsabilidades diante de seus atos. Algo muito rigoroso para qualquer acidente leve sem vítimas, algo extremamente rigoroso para com vítimas leves e algo exageradamente rigoroso com vítimas fatais. As pessoas têm e devem se controlar por consciência própria, porque sabem que se não o fizerem as conseqüências de seus atos serão punidos de forma severa. E não adianta falar que não dá pra pedir para o bêbado ter consciência, mas dá para pedir para o sóbrio evitar exageros, pois saberá que as conseqüências podem ser desastrosas para o resto de sua vida.
Criar sanções e penas sumárias, como tirar carteiras ou suspendê-las por anos, fará com que as pessoas repensem seus atos. Não sei quanto às multas, pois embora saiba que o bolso das pessoas é sempre uma forma eficaz de manter consciências sóbrias, me parece que em um país onde toda forma de fiscalização sempre deságua em corrupção torpe, talvez seja o caso de evitar.
Penso que todas essas medidas; o aumento do limite da tolerância de álcool, mas com a mesma fiscalização da lei seca; o aumento das frotas de transporte coletivos durante as madrugadas; e medidas severas, sumárias e muito duras, seriam o suficiente para a mesma redução nas estatísticas de acidentes. Não acho justo nós termos que criar modos mirabolantes como motoristas e motos, vans e sei lá que raios de jeitos para fazer com que nossos clientes possam vir aos nossos estabelecimentos e voltem pra casa após uma noite de divertimento.
Quando enumero tais argumentos, não é esperando que as pessoas venham ao Canto da Ema e encham a cara, mas sim na esperança de podermos todos ter uma vida social normal, sem ter que escolher alguém para não fazer uma coisa ou ter que depender de transporte que pode ou não aparecer. Em uma cidade tão intensa e tensa como São Paulo, essa lei quase que impede um grande número de pessoas de desfrutarem um momento de lazer completo.
Volto a dizer que aqui no Canto da Ema, não só tiramos os bêbados e exagerados, como evitamos que eles entrem na casa se já demonstrem um estado pouco conciliável com o clima de tranqüilidade e segurança que costuma reinar em nosso ambiente.
Espero que todos aqueles que, como eu, estejam felizes com os resultados da lei seca, pensem e entendam que ela é eficaz, mas poderia ser melhor digerida se fosse mais razoável.
Parabéns aos responsáveis pela iniciativa, agora só falta adequá-la à alegria e vontade de se divertir do nosso povo.
Paulinho Rosa  (Ago/2008)