Pré-Conceito
Criamos uma concepção de forró para o Canto da Ema. Decidimos, desde o início, que trabalharíamos com o que existe de mais tradicional no ritmo, que são os trios e com as bandas que trouxessem coisas novas e de qualidade, sem perder a característica de ser forró.
Seguimos fielmente essa determinação e acho que temos sido felizes com isso. Além de trios fantásticos que sempre tivemos por aqui, tivemos excelentes bandas e músicos com características bem diversas entre eles, mas sempre fazendo forró: O Bando de Maria, Arleno Farias, Bicho de Pé, Miltinho Edilberto, Rastapé e Falamansa são só alguns desses exemplos.
Na linha oposta, por percepção ou preconceito, sempre evitamos as bandas de forreggae e tudo aquilo que nos parecia fugir demais do forró.
Por volta da virada do século, ou seja, no início do Canto da Ema, um grande número de bandas surgiu misturando forró com reggae, com mais ou menos competência e inspiração. Elas passaram a dividir, em casas de "forró", o espaço que estava destinado à música criada por Luiz Gonzaga.
Várias delas bateram diversas vezes à nossa porta e nós nunca permitimos que aqui se apresentassem. Uma delas, cujo cantor e principal compositor chama-se Ricardo Trip, levantou diversas vezes a possibilidade de trabalharmos juntos com sua banda, o Peixe Elétrico. Embora não simpatizasse com o som da banda, ele era um bom amigo, além de freqüentador da casa. Vinha, dançava e, por vezes, dava canjas em alguns shows. Eu sempre o recebia bem como amigo, mas empurrava com a barriga qualquer possibilidade de trabalho conjunto.
Até que um dia, muito tempo depois, na verdade, alguns anos depois, ele veio com um demo com duas músicas gravadas que fariam parte de seu novo trabalho. Eram duas excelentes músicas de forró, um baião e um xote com bom ritmo e muito boa letra. Pouco depois mandou o CD inteiro gravado.
Ouvimos e gostamos, mas como seria trazer para casa que sempre se vangloriou de ser reduto de forró, uma banda que era um dos ícones daquela mistura que nunca concordamos?
Reunimos aqui no Canto todas as pessoas que decidiam a programação. Resolvemos dar um chute em nossos preconceitos e arriscar trazer a banda para cá. Mas, para isso fizemos uma pesadíssima pressão dizendo que só aceitaríamos forró e que reggae só se fosse no bis ou no fim do show como algo diferente, assim como a banda Bicho de Pé faz com o samba.
Anunciamos no site: "Peixe Elétrico (fazendo forró)" e fomos pra casa dormir morrendo de medo.
Nos dias seguintes e véspera do show muita gente elogiou, mas outro tanto de "diabinhos" atormentaram minha consciência perguntando " Peixe Elétrico no Canto? Você está louco?".
A sorte estava lançada.
No dia do show ressaltei mais uma vez a obrigatoriedade (se é que algum produtor pode obrigar algum artista a algo dentro da sua arte) de que fizessem um show de forró.
Quando começou o evento veio a surpresa, não só fizeram um excelente show de forró, como mesclaram num repertório fantástico músicas próprias e pérolas do cancioneiro forrozeiro mais tradicional que é pouco tocado, e ainda fizeram leituras muito bonitas de clássicos da MPB que são baiões de uma forma dançante e muito gostosa. Foram mais de duas horas de um show de forró dos melhores, sem deixar nenhuma brecha para arrependimento. No final, tal qual combinado e para deleite de alguns de seus fãs, tocaram alguns forreggaes próprios de grande sucesso.
Aprendemos mais uma vez que não devemos ter pré-conceitos, devemos sim ter cuidado como e quem colocar para tocar. O Peixe fez sua parte, aprendeu que para nadar nessas águas seria preciso se adaptar um pouquinho, tal qual nós fizemos.

Lembrete: dia 29 de maio tem Peixe no Canto!
Paulinho Rosa  (Mai/2008)