Desabafo
Até quando temos que agüentar o fim de boas bandas e a desistência de grandes talentos na cultura por falta de oportunidades reais na grande mídia? Quem nunca ouviu uma reclamação com conteúdo parecido como este: "tem tanta gente boa por aí que não aparece e um monte de coisa ruim toca o tempo todo na rádio e na televisão"? Quem de vocês não conhece ao menos um grande talento, bem melhor do que muitos músicos que tocam em rádio e que não tiveram e não terão a menor chance? É lógico que "bom e ruim" nesse caso, pode até ser subjetivo, já que depende de gosto e não só de técnica, afinal existem músicos com reconhecida técnica que acabam sendo muito chatos e outros que, embora sejam aquém de um certo virtuosismo, fazem coisas mais palatáveis.
De maneira geral, existe uma certa banalidade corrente nos meios de comunicação; uma música pobre de melodia, letra, espírito e, sobretudo, de intenção dos compositores, produtores e empresários, que pouco interesse têm na cultura e mesmo na música em si, mas têm muitos olhos na rentabilidade que podem dar.
E não é só a mídia, a maioria das gravadoras, apoiadas no real argumento da pirataria, pouco se dispõem a ajudar, deixando órfãos músicos bons e geniais aos montes. Dificilmente se investe em banda ou músico novo, o dinheiro do "show business" está muito mais nos shows e nas propagandas (já que cortaram o filão da política) do que em venda de CDs. É verdade que as gravadoras cobram preços abusivos por um CD, mas, por mais que diminuíssem a margem de lucro, elas ainda teriam que arcar com estúdio, músicos, divulgação e distribuição, enquanto que os piratas têm que ter uma barraquinha e às vezes só um caixote e um espaçozinho na calçada.
De qualquer forma, isso não é desculpa para não tentarem investir em música de melhor qualidade, afinal, elas ainda pagam "jabás" para rádios que tocam as músicas que elas gravam, e quase sempre é algo fácil, às vezes até apelativo.
Não acredito na desculpa que são músicas mais inteligíveis para o povo, pois na época dos festivais, Chico Buarque, Caetano e tantos outros faziam sucesso. Basta martelar 10 vezes por dia como fazem com as músicas atuais, que muitos bons músicos venderiam muito.
Se mídia e gravadora não investem, o resultado é uma evasão de músicos que se trancam em guetos e pequenas casas escondidas em bairros, trocam de rumo ou simplesmente desistem da profissão.
Isso tem acontecido sistematicamente também no forró. Para citar apenas as bandas que tocavam constantemente no Canto da Ema lembramos o Triângulo Caraíva, que acabou de dissolvendo e rompendo depois de anos de perseverança e agora estão ensaiando um retorno. O Forroçacana, produto mais bem acabado de todo o movimento, o maior sucesso do gênero depois de quase dez anos de estrada com muito prestígio no meio e reconhecimento de grandes artistas de toda a MPB, mas sem ganhar dinheiro e sem a resposta maior da grande mídia e do grande público, (já que tinham praticamente só o público do forró, onde eram unanimidade) acabaram se separando e cada um tentando caminho solo. E, por último, a mais recente baixa, O Bando de Maria, banda que apareceu como um tornado, com arranjos e repertório super interessantes e uma cantora explosiva (em todos os sentidos), mas que foi perdendo a força (tal qual um tornado), até desanimar pela falta de retorno financeiro e de apoio estrutural, resolveu tirar "férias".
Em menos de um mês de afastamento dos palcos do Canto da Ema, recebemos um imenso número de e-mails perguntando cadê eles. A pergunta nós repassamos para a mídia e gravadoras, cadê eles: O Bando de Maria, o Triângulo Caraíva e o Forroçacana?
Como não obterei nenhuma resposta vai sobrar para nós, amantes do forró e da música, a responsabilidade de tentar dissuadi-los a desistir. Por isso voltemos ao trabalho de "formiguinhas", que é o que nos cabe. A todos que desejam ver O Bando de Maria de volta e todas as demais bandas, escrevam para eles, mostrem que, pelo menos entre o público forrozeiro, eles ainda têm um grande carinho. E que fique bem claro, não vamos esmorecer e nem nos deixar levar por algumas bobagens que somos obrigados a escutar pelo rádio.

obandodemaria@obandodemaria.com.br
Paulinho Rosa  (Abr/2008)