Síndrome de Museu... errada!
Outro dia, conversando sobre futebol, em uma roda de amigos, um deles da minha idade falou que bom mesmo era o tempo de Falcão, Sócrates e Zico, que o futebol de agora com Kaká, Ronaldinho e Robinho não está com nada.
Lembro, como se fosse hoje, que na época dessa saudosa geração, por volta do ano de 1982, ouvia vários comentaristas, que eram bem mais velhos, reclamando daquela seleção, falando que boa mesmo era a de 70. Li, em alguns manuais que a seleção de 70 foi muito criticada por comentaristas saudosistas das seleções de 58 e 62, estas por sua vez, foram muito "pichadas" na época, pelos que sonhavam em ver novos Leônidas da Silva em campo.
Parece normal, "psicologizando" um pouco, temos a tendência em idealizar o passado relembrando só as coisas boas, esquecendo os defeitos que existiam, e os programas de televisão insistem em não reprisar, mostrando só o que tem de bom, construindo, portanto, uma nova verdade para o passado.
No forró isso tudo se repete, mas com um componente um pouco mais complicado. Não só os "forrozeiros" valorizam o passado, como deram agora para apenas valorizar os desconhecidos do passado. Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Marinês são reverenciados e adorados com toda a razão, mas, às vezes, muito menos que célebres desconhecidos do passado. Nas rodinhas de "entendidos" de forró, fala-se muito mais em Jacinto Limeira, Borrachinha, Edson Duarte, Abdias e Zito Borborema, do que nos principais nomes do gênero. Nesse caso não é só a valorização do passado, mas uma necessidade clara de querer se mostrar mais conhecedor do que a história. Não só querem idealizar o passado, como transformar bons músicos em excelentes músicos, rivalizando com os ídolos contemporâneos deles mesmos. Ou seja, Jacinto Limeira, com certeza era fã ardoroso de Luiz Gonzaga, sonhava em ser um Gonzaga e queria que sua obra tivesse, pelo menos, 20% da importância, substância e quantidade da do "Rei do Baião".
Hoje, os "forrozeiros" os colocam em um mesmo patamar, como se tivessem descoberto uma relíquia no passado, algo como um pintor tão bom quanto um Van Gogh, esquecido em um porão e que só agora fosse revelado. Não é o caso: a obra de todos esses bons músicos está aí para quem quiser ver desde sempre, não foi descoberto nenhum disco novo, ou algo que realmente os faça mudar de patamar. Continuam tendo boas coisas, mas muito aquém de Luiz Gonzaga e todos os grandes nomes da história. E, para sermos bem justos, muito aquém de vários trios e bandas atuais, que têm mais composições, de mais qualidade e também mais influência do que gostariam os "forrozeiros".
Mas deixem o tempo passar; daqui a 20 anos eles vão relembrar com saudades e falar: bom mesmo eram Trio Virgulino, Trio Sabiá, Trio Araripe, O Bando de Maria, Bicho de Pé e etc.
Paulinho Rosa  (Dez/2007)