Unanimidade!
Nelson Rodrigues disse que toda unanimidade é burra; afinal, quem pensa com a unanimidade não precisa pensar. Era assim que ele achava e é assim que muitas vezes as coisas funcionam. Somos indivíduos, logo temos ou devíamos ter, cada um, discernimento para tomar decisões pessoais e individuais que podem ou não coincidir com opiniões de outras pessoas ou de grupos.
Difícil é achar exemplos em que existe realmente uma unanimidade, mesmo porque há pessoas cujo prazer é remar sempre contra a maré. Lembro-me quando Caetano lançou o CD "Prenda Minha" que continha a deliciosa música "Sozinho" do Peninha; pois bem, foi o disco mais vendido do artista baiano até então e virou febre nas rádios e na boca das pessoas. Os "contra a maré" tradicionais disseram não ao sucesso de Caetano, acusando-o de ter virado comercial e gravado uma música "menor" apenas para fazer sucesso.
A Falamansa teve o mesmo problema; era aclamada no forró, quando obteve sucesso nacional com a venda de quase dois milhões de CDs; parte dos seus fãs viraram a cara, como se fosse proibido fazer sucesso popular.
No caso do forró tivemos uma unanimidade por um bom tempo, nem os "contra a maré" apareceram, pois todos os que viam a banda Forróçacana no palco saiam felizes com o que tinham ouvido.
Duani, Marquinhos Molleta, Cachaça, Chris, Mara, e mais um baixista que às vezes variava, arrastavam multidões e nunca ouvi um comentário contrário sobre o show deles; no máximo alguém reclamando da lotação, mas nada mais.
O Forróçacana justificou todo esse sucesso. Com uma "levada" vigorosa de forró, excelentes músicos e músicas, com letras pouco inspiradas, mas fáceis e diretas, conseguiam fazer algo diferente do que todos faziam. Não era apenas o público que delirava, mas também seus colegas músicos e principalmente os do forró.
A qualidade era tanta que a gravação do DVD contou com inúmeros convidados de peso, entre eles Elba Ramalho, Alceu Valença, Fagner, Zeca Baleiro e Alcione, todos fazendo duetos incríveis com Duani nos vocais.
Mas o tempo passou e, seja pelo motivo que tiver sido, a banda acabou deixando um enorme vazio no forró.
A única unanimidade, burra ou não, deixou de ser para virar mito e isso talvez seja pior que unanimidade. Mitificação ou endeusamento eliminam defeitos e criticas, tal como acontece com os apaixonados diante de suas paixões. Idolatria é perigoso, pois em algum momento a razão volta e a realidade pode nos trazer desgosto.
Alguém que não os viu no palco deve perguntar por que razão eles não fizeram o mesmo sucesso que, por exemplo, a Falamansa. Sem querer criar rivalidade ou competição, a verdade é que uma vendeu e apareceu muito mais que a outra, que foi unanimidade dentro do restrito gueto do forró. Será que se tivessem saído do gueto eles teriam continuado a ser unanimidade?
Porque não conseguiram expandir tal qual a Falamansa?
Produção? Carisma? Letras de música? Momento errado? Seja pelo motivo que for seria bom que eles voltassem, aliás, seria bom que eles assumissem o Forró com a paixão que seus seguidores ( e eu me coloco entre eles) demonstram ter pelo ritmo.
Quem sabe eles conseguissem chegar a patamar nacional e trazer, tal qual fez a Falamansa, o forró pra mídia, casamentos, bailes de formatura, batizados etc, sem medo de perder a unanimidade, pois Nelson Rodrigues no fundo no fundo tinha um pouco de razão, a unanimidade é burra, ou quase sempre.
Paulinho Rosa  (Set/2013)