Ariscar é Difícil
Arriscar é difícil! Presume possibilidade de perdas, faz o coração acelerar, aumenta a adrenalina e às vezes faz perder o sono. Mas paixão é assim mesmo. Sempre é muito mais fácil os modelos de sucesso pré-determinados, aqueles com pedigree, apólice de seguro e principalmente excessos de garantias com prazos longos. Isso dá felicidade? Pode ser...
Quando resolvemos abrir o Canto da Ema, escolhemos o forró por ser uma paixão. Ao contrário do que toda a lógica recomendava, resolvemos nos enveredar pelas bandas (trios no caso) da sanfona, zabumba e triângulo. Sabíamos de todo o preconceito que o público tinha, e também por parte da mídia e dos empresários, mas fazer o quê? Se o coração pedia...
Às vezes a vida é assim, vamos pelos caminhos do coração mesmo podendo quebrar a cara.
Já, nos idos anos de início da década de 90, quando começamos a trabalhar com forró, tudo isso parecia loucura. Como alguém se sujeita a se meter com um ritmo quase esquecido e tão cheio de reservas e medos? Que empresários investiriam no ritmo e que tipo de cobertura e apoio teríamos da imprensa? Não era mais fácil fazer como muita gente faz até hoje em dia, apenas copiar os modelos prontos e de sucesso?
Vejam o caso dos bares, o Original (curioso o nome nesse caso) fez um bar modelo carioca. Pronto, hoje tem uns 100 quase iguais em virtude do bar Original. Variam nas cores, nomes e em alguns petiscos, mas é praticamente gêmeo um do outro. Na dúvida entre correr o risco e copiar um modelo de sucesso, as pessoas, os empresários preferiram a segunda hipótese. São infelizes? Não sei, acho que não, pois a maioria, assim como o Original, continua fazendo muito sucesso.
Mas só dinheiro é sucesso? Isso basta para ser feliz, sentir aquele arrepio de satisfação e vibrar com as coisas a ponto de ficar tão agitado que não consegue nem dormir?
Será que no futuro, mesmo com esse decantado sucesso, não terá ficado alguma pontinha da cabeça e do coração como um fantasma puxando o pé à noite? Já pensou estar diariamente ouvindo algo que não nos dá prazer?
Uma vez teve um empresário sugerindo uma banda de um ritmo que eles chamam de forró. Fico imaginando tendo que ouvir 5 horas diariamente desse ritmo. E, mesmo que fosse um outro ritmo legal que gostássemos, ainda assim sentiríamos falta do forró.
Nós, quando resolvemos apostar no forró foi assim: fazíamos festas em que divulgávamos apenas a execução de outros ritmos, para na hora, enganando o povo, tocarmos o nosso querido ritmo. Isso levou um tempo até que resolvemos tomar coragem e arriscar fazer festas apenas com forró. E foi um sucesso!
Confesso que tivemos calafrios, tremores e medo de perder o pouco que tínhamos. Lembro-me da primeira noite em uma casa semanal, era mais ou menos meia-noite e tinham umas 15 pessoas dentro da casa, e nós, os produtores, com aquele sorriso amarelo fingindo estar tudo bem e dançando com o coração apertado e o medo do fracasso iminente. Acabamos a noite com mais de 200 pessoas!
Foi um risco, mas a partir daí começamos a caminhada que culminou no Canto da Ema e uma série de shows antológicos e inesquecíveis.
Quando perguntam qual o sucesso da casa, nós sempre respondemos que gostamos de forró e fazemos com paixão. Nesse caso valeu arriscar, valeu apostar naquilo que nos dá mais emoção, mais alegria e felicidade. A sensação de conseguir aquilo que desejamos é maravilhosa, transborda, estremece, dá vontade de rir, pular, gritar e abraçar o mundo.
Podíamos ter perdido tudo, mas, entre a paixão e a segurança, escolhemos o primeiro.
Podemos dizer que somos muito felizes... E sem fantasmas no pé!
Paulinho Rosa  (Abr/2007)