Tão Simples que é Especial
Era um dia normal, desses que temos sempre, sem nada de especial ou diferente, pelo menos até o momento em que o telefone tocou.
Era Dominguinhos, seu nome apareceu na tela e eu tremi, fato que se repetiu até o final, pois nunca, mesmo depois quando a amizade mais que se solidificou, eu consegui ficar totalmente calmo ao lado dele.
Falei alô e a voz inconfundível do outro lado surgiu com a meiguice de sempre perguntando como eu estava, se a família estava bem e outros assuntos, desses que amigos falam. E era isso, exatamente isso, que percebi: éramos amigos e eu tremi mais ainda.
Dominguinhos foi sempre meu ídolo, pelo menos desde que conheci o Forró em 1996, e ficar amigo de um ídolo era algo muito especial.
Na verdade, acho que já éramos amigos, mas só tomei realmente ciência disso por ocasião desse telefonema.
Não conto isso pra me gabar, mas pra poder falar mais à vontade sobre a pessoa Dominguinhos, sobre o ser humano incrível que foge do estereótipo típico de artista pra se mostrar uma pessoa comum, sanfoneiro, como ele mesmo brincava quando o chamavam de artista.
Pra entender ainda mais tudo isso e desvendar sua simplicidade é preciso contar que raramente Dominguinhos fala dele próprio - ao contrário do artista que até por necessidade intrínseca da profissão tem como característica inerente brilhar e, por isso, adoram falar de si próprios -, ele pouco faz questão de ser o assunto, aliás, ele adora falar dos amigos e relembrar o que estes fizeram. Com sua memória privilegiada, ele conta de fatos de que participou, tocando, compondo, conversando, mas raramente como o protagonista, sempre ali como espectador, como se a gente acreditasse.
Mas vamos lá...
Uma vez, em uma viagem que fizemos até Belo Horizonte, rodando em seus 80km/h habituais, o que transformava a viagem em longas jornadas (nesse caso, ainda bem), paramos diversas vezes como era do seu feitio, ora para banheiro, ora para um café, ora para qualquer coisa, mas ele adora parar. Pois bem, era a hora de almoçar e paramos em um desses restaurantes de posto onde serviam comida a quilo.
Um rapaz veio em nossa direção, enquanto nos servíamos, se pôs defronte dele, abriu os braços e bradou: "Gonzaguinha, que bom vê-lo aqui!"! Dominguinhos caiu na gargalhada, deu um abraço no rapaz e bateu um bom papo com seu conterrâneo, como gostava de chamar os nordestinos que encontrava pelo Brasil afora.
Uma outra vez, ele fora convidado para ir até um famoso bar no Itaim Bibi em São Paulo, para encontrar alguns executivos e empresários que queriam fazer um projeto em conjunto com nosso querido sanfoneiro. Um desses empresários era meu amigo e sabendo que eu o conhecia; pediu que eu participasse do encontro e eu não me furtei a isso. Quando cheguei, achei Dominguinhos com cara fechada e de poucos amigos; parecia tenso e fui cumprimentá-lo. Ele deu um sorriso, me deu um abraço e se acalmou. Fiquei ali ao lado, vendo as coisas se desenrolarem e percebi que os poucos sorrisos que ele dava e aquele rosto doce e meigo só aparecia quando um ou outro garçom chegava próximo. Logo vi que não era a comida o que o animava, mas sim estar ao lado de gente simples, aberta e que os engravatados, todos por perto, pouco diziam a Dominguinhos.
Uma das coisas que aprendi com ele é cumprimentar as pessoas. Não há lugar em que Dominguinhos não cumprimente quem quer que seja. Ele passa e pergunta: "como vai conterrâneo?" isso ou algo parecido, sempre dá um sorriso e segue em frente.
Nos períodos de doença, mesmo nesses dias pós quimioterapia em que ele sofre mais, ele pára para quem quer que o chame ou queira cumprimentá-lo, sempre atencioso e muito cuidadoso com qualquer pessoa que se acerque.
Certa vez, no lançamento de um livro, estávamos sentados ao redor de uma mesa, quando uma senhora sentou-se ao seu lado: era uma sanfoneira por quem Dominguinhos tinha uma grande admiração. Quando ela se afastou, ele me disse que era uma das melhores mulheres sanfoneiras que já havia visto. Na livraria havia um espaço para shows pequenos e Dominguinhos faria uma pequena apresentação: ele tocou uma música e chamou a sanfoneira para dividir o palco com ele. Nisso ele falou: "Paulinho ta aí?"... Era pra eu prestar atenção. Nos minutos seguintes, eu vi a grande sanfoneira fazendo solos incríveis e vi o maior sanfoneiro de todos os tempos humilde e tranquilo, apenas fazendo um acompanhamento singelo e discreto para que ela brilhasse, sem nenhum ciúme, inveja ou medo de parecer menor, coisa de sanfoneiro, coisa de Dominguinhos.
No primeiro show que fizeram sozinhos, Dominguinhos e Yamandu Costa pouco ensaiaram; aliás, ensaio foi algo que nunca ocorreu em nenhum dos shows que ambos fizeram ou dos CDs que gravaram. Encontravam-se no local e combinavam ali mesmo o que fariam. Lembro que, certa vez, cheguei ao camarim e dei de cara com a empresária de Yamandu, preocupada, pois seu pupilo estava bebendo mais do que deveria; ela me contou que ele estava nervoso de ter que subir ao palco com o músico Pernambucano.
O nervosismo seguiu claramente durante o show, nada que impedisse o genial violonista de fazer um dueto soberbo com Dominguinhos e, de quebra, contar uma história que é, de certa forma, um resumo do que é Dominguinhos na música. Yamandu contou que sua primeira experiência em tocar ao lado do sanfoneiro foi em um show que juntava três grandes representantes do instrumento de fole: Dominguinhos, Luiz Carlos Borges e Borguetti.
Yamandu havia sido convidado naquele dia para dar uma canja em uma das músicas. Era uma composição com vários espaços para solo e coube justamente o primeiro para ser executado pelo jovem violonista gaúcho. Ele contou que, num solo de cerca de 3 minutos, deve ter tocado umas 5 mil notas quase fazendo o violão incendiar, feliz com a própria atuação, certo de que havia mostrado ao seu ídolo Dominguinhos que era um excelente músico. O solo seguinte foi do próprio Dominguinhos, que fez o solo todo em duas notas. Duas! E, segundo Yamandu, foi a coisa mais bonita que ele disse ter ouvido até então. Contou, então, que pegou uma vassoura que estava por perto, varreu aquele monte de notas inúteis jogadas ao chão que havia tocado, colocou literalmente a viola no saco e foi prá casa pensando no que era música.
Dominguinhos tinha essa característica, talvez forjada pelo fato de desde muito jovem tocar na noite com excelentes músicos. Ele sabe exatamente onde colocar cada nota, cada solo e a introdução que faz, sempre sem exageros e sempre, sabe-se lá que divindade o ajuda, tudo muito bonito.
Várias vezes em estúdio, ele era convidado a colocar um solo de sanfona. O diretor artístico pedia uma frase de sanfona em um pedaço X da música. Ele ouvia a música, dedilhava calmamente a sanfona enquanto a escutava, quase que como registrando automaticamente o som. No momento seguinte, pedia para soltar a música novamente e fazia o solo. O diretor, fosse ele qual fosse, maravilhado, feliz da vida, sempre achava que estava perfeito e pedia que ele fizesse exatamente aquilo. Ele não fazia, mas compunha um outro tão ou mais bonito que o primeiro. Coisa de gênio.
Por falar nessas participações, Dominguinhos foi a pessoa mais generosa que já conheci. Sempre aceitava fazer as canjas, seja no CD de um grande figurão da MPB seja no mais humilde trio de forró do nordeste ou periferia de São Paulo. Sempre com a mesma disposição e genialidade.
Esses são apenas alguns casos que vivenciei. Tem muito, mas muito mais, mas o texto está ficando longo demais, não para escrever, pois falar de Dominguinhos só é menor prazer do que conversar com ele. Mas agora, isso tá difícil.
Dá saudades e por isso resolvi contar um pouco sobre ele, sobre José Domingos de Moraes, esta pessoa incrível, tão genial e maravilhosa quanto o músico que vemos no palco e olha que isso nem sempre é normal.
Saudades do amigo
(PS: o texto está escrito no presente propositalmente)
Paulinho Rosa  (Ago/2013)