A Luz do Forró
Catarata Congênita não é um nome bonito, aliás, nem o que ele significa é lá muito legal, mas foi ela quem trouxe o rapaz Enok Virgulino para o Sudeste. Catarata Congênita é o nome de uma doença genética que causa seríssimos problemas nos olhos. Dificilmente quem tem tal problema tem mais de 20% da visão. Seria resolvível, em parte, se a pessoa fizer uma operação até os 7 anos de idade, mas como o nosso personagem não tinha condições financeiras e conhecimento para isso, deixou a vida caminhar.
O que seria um drama e possivelmente uma desculpa para autopiedade e preguiça de viver, virou, para esse pernambucano de Parnamirim, mais uma força para tocar a vida em frente. E tocar literalmente, pois já que não via muito bem, apelou para outros sentidos, e a audição passou a se revelar, foi quando começou a tocar alguns instrumentos musicais.
Enok passou a se deliciar com o que ouvia e morando no sertão vizinho a Exu, terra de Luiz Gonzaga, é claro que iria para o forró!! Errado! Fez parte de uma banda de rock.
Foi por pouco tempo, pois acabou ganhando de seu pai uma sanfona, fruto de uma aposta de cachaceiros. Lá se foi aquele menino de olhar engraçado, sorriso fácil, meio desconjuntado, mas com uma luz que viria a iluminar todo o reaparecimento do forró na região Sudeste.
Enok veio para São Paulo atrás de tentar curar sua doença. Montou um Trio de Forró, o Trio Virgulino, na companhia do amigo parnamiriense Adelmo e do exuense Roberto, colegas de infância. Entre feiras, bailes e chapéus estendidos à espera de moedas, Enok acabou conhecendo alunos de veterinária da USP e daí iniciou-se uma paixão ilimitada entre o Trio Virgulino e os estudantes de São Paulo.
Tocando um ritmo pouco executado e visto com muito preconceito, foi preciso de muita capacidade, persistência, competência e luz para que as pessoas passassem a conhecer e freqüentar o que para muita gente era impossível na época, o forró.
A história tem muito mais capítulos e a intenção aqui não é contá-la por completo, mas sim tagarelar sobre essa luz.
Esse termo, para se referir a Enok e suas atuações como artista e como ser humano, ouvi pela primeira vez de Lenine. No dia em que esteve no Canto da Ema durante algumas horas, entre petiscos, cantorias, danças e sanfonadas do nosso protagonista de hoje, Lenine confidenciou-me a admiração por aquele músico: "Que luz tem aquele sanfoneiro!".
Esse termo foi o que melhor me pareceu definir o carisma desse artista de riso fácil e total descontração nos palcos.
Dominguinhos, em uma entrevista para o site do Canto da Ema, referiu-se ao sanfoneiro do Trio Virgulino, como um baluarte da sanfona.
Os elogios não vêm apenas dos monstros sagrados de nossa música. A maioria das bandas de forró surgidas de 1995 para cá, tem o trio Virgulino como padrinhos e, sobretudo, em Enok a grande referência. Não só pelo seu talento.
Em casa, já me confidenciaram alguns familiares, é sempre a mesma coisa; é a alegria, o companheiro, o amigo e pai de sempre.
Teva quatro filhos, três nasceram com o mesmo problema, são igualmente animados, simpáticos e de bem com a vida. Alguns já arriscam os passos na música. Jonas, o único que nasceu sem o problema, faz parte de O Bando de Maria. Rafael iniciando na sanfona. Cris e Daniela, aperfeiçoando a arte de cantar, devem seguir a mesma trilha.
Na casa dos Virgulino é tudo assim. Muita música, muita alegria e luz.
Essa mesma luz que traz para quem acompanha as fantásticas quartas-feiras no Canto da Ema. Nesses dias tudo é farra. Ele faz a alegria de todos brincando, gritando, rindo, contando histórias, arrebentando na sanfona ou pedindo aplausos. Enok é festa!
Escorregadio que nem quiabo se dá bem com todo mundo. Com jeitinho e um grande sorriso dá nó nos contratantes e desata nós fechados.
Homem responsável, chefe de família (se bem que quem parece mandar mesmo é a "dona da pensão"), Enok vai montando sua cidadezinha particular. Vai montando casas e quando parar de encantar, deve viver de aluguéis e, se possível, dos cachês da família que criou e ensinou a viver, tocar e cantar. Sempre com festa, com alegria, com aquela luz que nos referimos.
Quando acontecer já até imaginamos o que irá dizer:
- Tô tão feliz!
Paulinho Rosa  (Mai/2006)