Demorei
para escrever o editorial deste mês. Um pouco porque
o mês é mais curto (que desculpa péssima!),
por preguiça, mas também devido a uma certa
intuição a respeito de que algo muito especial
aconteceria no dia 28 de fevereiro. Dia do show em apoio
a Zezum (importante compositor e ritmista de forró),
com participação do Trio Virgulino, Chico
César, Dominguinhos e Elba Ramalho.
E aconteceu: uma odisséia de alegria,
desespero, tensão, agonia, ansiedade, alívio e felicidade.
A história desse evento já foi
surpreendente desde o início. Partiu de Elba Ramalho, que soube do show
de Dominguinhos, Chico César e Lenine, no final de 2003, e ficou enciumada.
Perguntou por que não era chamada a participar.
Dessa intenção, Dominguinhos
e nós, do Canto da Ema, juntamos a necessidade de ajudar o querido compositor
e amigo Zezum, que passa por momento muito delicado de saúde e, conseqüentemente,
financeiro, ligamos para Chico César. Estava formado mais um fantástico
trio de forró.
Começa a bagunça de produção.
Dominguinhos e Chico César, tudo fácil. Ambos moram em São
Paulo e já têm uma certa "proximidade" com o Canto da
Ema. No caso de Elba Ramalho, artista superpopular, precisaríamos de algumas
coisas a mais. Correria para lá, correria para cá, telefonemas,
emails e pronto. Chega dia 28.
Tudo arrumado. Dominguinhos e Chico, acertados
de chegarem por volta das 23h. Elba chegaria à tarde, vinda do Rio.
Eu, encarregado de buscá-la em Congonhas, às
17h, recebo o telefonema em que fico sabendo que a cantora só viria por
volta das 20h. Às 19h30, chega a notícia de que só viria às
21h20. Fui para casa me preparar, tomar banho, comer algo calórico para
agüentar o tranco (chocolate de preferência). Coisas normais que fazemos
antes de ir para um show. Toca o telefone. Era Gaetano, marido e empresário
da estrela. Quase que desesperado, me diz que Elba Ramalho ainda está no
Rio de Janeiro, presa no túnel que atravessa a Rocinha, onde acabara de
começar uma guerra entre as gangues do Vidigal e da própria Rocinha.
Um frio me percorreu a espinha. Esperava o que ele diria em seguida, o que não
demorou muito: "Acho que teremos que cancelar o show!".
Entre desesperado, triste e apavorado, reconheço,
com aparente calma, que mais vale pensar na vida dela do que no show do Canto
da Ema. Desliguei o telefone. Pensei em como dizer a todos que Elba não
viria. O que falaria? Como avisar ao público dando a opção
de serem ressarcidos aqueles que compraram ingressos antecipados e por ventura
não quisessem ver o show? Tocou o telefone novamente, dessa vez a voz
inconfundível de Elba Ramalho. Claramente nervosa, informa que os caminhos
estão travados e ela não sabe o que fazer. Disse que ouvia rajada
de tiros por perto e que os carros estavam retornando pela contra-mão.
Disse-lhe que entendia a situação e que ela, dentro do possível,
tentasse vir. Falei, mesmo sabendo que a probabilidade era pequena...
Ligo para o Canto da Ema e informo o gerente/sócio
Zé Roberto sobre a situação. Precisava de um companheiro
de desespero...
Ligo para Dominguinhos e recebo aquela voz
de sabedoria e tranqüilidade: “Paulinho, se Elba não vier, Chico
e eu faremos o show... vai ser bom". Que alegria!!!! A serenidade de quem
está acima do bem e do mal me dá forças para pensar em uma
noite boa. Toca o telefone, mais uma vez do Rio. Espero pela frase definitiva,
a última pá de areia sobre o que restava de esperança.
"Estamos chegando!!!! Pegaremos o avião
e às 22h40, estaremos em Congonhas" informou a produtora de Elba.
Deus existe, pensei, é brasileiro
e provavelmente nordestino... deve adorar forró!!!! Saio em disparada
para o banho, ligo para todos os que deixei amedrontados e os faço ficarem
na mesma euforia que eu.
23h30. Finalmente com todas as estrelas dentro
do camarim. Inclusive o Trio Virgulino, que não soubera de nada.
O público chegou devagar, com calma.
700 pessoas, o número preciso que esperávamos e queríamos.
Por volta da 1h00 o espetáculo começa. Para nós, do Canto,
com toda a força de quem quase viu tudo desmoronar, com adrenalina no
máximo e a certeza de que aqueles três baluartes da nossa cultura
honrariam a fama que têm. E como o fizeram! Os aplausos foram ensurdecedores.
Que delícia anunciar: "com vocês: no zabumba, Chico César,
na sanfona, Dominguinhos, no triângulo, Elba Ramalho".
Dominguinhos chama para si a responsabilidade
de pôr ordem nas coisas. Organiza o show e com a maestria de sempre, arrasou.
Sua sanfona nos toca e nos emociona, faz a música pairar em nossos corpos,
como se nos levitasse. Elba finalmente começou a cantar. Sua voz (e que
voz!!!) parece que põe todos em uma espécie de transe coletivo.
O Canto da Ema inteiro canta junto com ela: Tenho Sede, Onde Está Você,
De Volta Pro Aconchego, Xote das Meninas, etc. Chico César, o menos forrozeiro
dos três, acompanhando tudo, se divertindo e brincando. Quando chegou a
sua vez, cantou e tocou de forma contagiante e arrebatadora.
Foram cerca de duas horas de show. Duas horas
que pudemos reverenciar três dos maiores artistas deste país, acompanhados
pelo maravilhoso Trio Virgulino, mais Fúba de Taperoá, Dió de
Araújo, Fabinho, Lau e Dido, que proporcionaram ao Canto da Ema, mais
uma noite inesquecível.
Obrigado a todos os artistas e ao fantástico
coro do Canto da Ema.
Parabéns ao Zezum, que após saber do resultado
do evento, me ligou emocionado agradecendo.
Que nada, Zezum, se você soubesse o
quanto já nos emocionou com suas canções...
Até o próximo Arrumadinho!
|