Semana
passada morreu Miudinho. Ele foi integrante do primeiro
Trio Nordestino que existiu. O primeiro trio com esse nome:
Trio Nordestino.
Miudinho, nascido no Ceará, era zabumbeiro
e fazia coro. Nunca foi um grande músico no que tange a fazer sucesso
e ser reconhecido pelo público; foi, porém, sempre um bom musico.
Era um pequeno artista nordestino, tocava forró e acompanhou, durante
muito tempo, sua Majestade o rei do Baião. Nunca solou, nunca foi estrela.
Por isso tudo, pouco se falou de sua morte. Na verdade, nada se falou. Quase
ninguém lembrou e quem lembrou foram os poucos que viveram com ele na
sua época, que tocaram com ele e que souberam que era músico. No
mais, ninguém nem sabe que existiu um Miudinho, que era zabumbeiro e que
um dia tocou ao lado de outros músicos que ficaram muito mais famosos
que ele.
Na década de 50, mais precisamente
em 57, foi formado o primeiro trio nordestino que, além do falecido Miudinho,
tinha ao seu lado, na sanfona, um jovem músico, que atendia pelo nome
de Nenem; hoje, mais conhecido como Dominguinhos. No triângulo, quem despontava,
cantando a maioria das músicas, era um outro forrozeiro, pouco conhecido
nos meios forrozísticos atuais, mas um sucesso durante as décadas
de 50, 60 e 70: Zito Borborema.
De Dominguinhos há muito o que se
falar, além do que já se falou e tudo o que se fala dele ainda é pouco
diante de sua genialidade e virtuosismo. Aqui mesmo, neste espaço, já "cansamos" de
discorrer sobre seus feitos e qualidades: é um grande artista nordestino,
reconhecido em todo Brasil (menos do que merecia!). Falemos então de Zito
Borborema: esse Paraibano de Taperuá tinha uma voz aguda e excelente ritmo
e viveu bons momentos na história da música nordestina. Ao contrário
de Miudinho, gravou diversos discos solos e uma grande quantidade de sucessos
como "Mata Sete" , "Corocotum", "Tempo de Mulecote" entre
outros. Nunca teve reconhecimento nacional, mas foi respeitado entre o meio dos
súditos de Gonzagão. Foi um excelente artista, mas de médio
porte na nossa cultura se pensarmos em termos de reconhecimento.
Os três juntos, o pequeno, o médio
e o grande, fizeram em um curto espaço de tempo, relativo sucesso, tocando
forró do bom e do mais pé-de-serra que se possa imaginar. Não
chegaram a gravar.
O Trio durou pouco, em virtude dos anseios
e qualidades individuais, sobretudo de Dominguinhos e Zito Borborema. Assim que
foi desfeito, cada um seguiu seu rumo, como deve ser. Miudinho, ao contrário
dos outros dois, pouco conseguiu no meio artístico e acabou indo morar
em Brasilia, onde viveu até o dia de sua morte.
O Trio Nordestino acabou voltando a aparecer
nas mãos, no suingue e na alegria dos Três Baianos: Coroné,
Cobrinha e Lindú e também, com os paulistas: Xavier, Heleno e Toninho,
este último sogro de Osvaldinho do Acordeon. Baianos e paulistas disputaram
em uma acirrada pendenga judicial, o direito de usar o nome do trio que um dia
fora de Miudinho. Com os valiosos testemunhos de Luiz Gonzaga e do ex-Neném,
agora Dominguinhos, o Trio Baiano venceu e deu continuidade à saga do
Trio Nordestino com estrondoso sucesso.
Nunca mais ouvimos falar do primeiro Trio
Nordestino. Pouco se conta ou se lembra deles quando falamos sobre a origem do
forró e a história do ritmo. Mas não é culpa de ninguém.
Miudinho teve um parcela pequena de importância, mas teve. Aqui no Canto
da Ema, casa especializada em forró, lembramos deste pequeno artista que
um dia dividiu com Zito Borborema, um médio artista, e com Dominguinhos,
um gigante artista, os palcos de forró no norte e nordeste do país
na década de 50.
Não foi a primeira vez um artista
foi esquecido no seu momento derradeiro.
Há pouco mais de dois anos, morreu
Cícero, zabumbeiro e irmão de Jackson do Pandeiro e também
dele ninguém falou.
Pouco depois, Zé Gonzaga, exímio
sanfoneiro e irmão de Luiz Gonzaga, também faleceu e o fato foi
ignorado. Em 1996, morreu João do Vale e pouco depois o precursor do forró em
São Paulo, Pedro Sertanejo, e pouco se noticiou na época sobre
eles. Os artistas nordestinos mais ligados a cultura popular têm pouca
chance de serem lembrados.
Na verdade não são lembrados em vida. Por
que o seriam na morte?
A propósito: quem dos artistas atuais
que estamos vendo despontar será, daqui a 30 anos pequeno, médio
ou grande?
Façam suas apostas!
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