Sim,
sempre muda! Que bom!
Desde que o movimento do forró teve
início, começando por deixar o confinamento das periferias e se
estabelecendo no centro de São Paulo, o público vem se renovando.
Vem se renovando também na idade, pois os freqüentadores de forró,
hoje, são muito mais jovens que os de tempos atrás.
Diversos fatores fazem com que isso aconteça,
mas me parece que o mais claro e natural refere-se ao fato de que, com o passar
dos anos, as pessoas tendem a ter mais compromissos afetivos e profissionais.
Começam os namoros, os casamentos e, às vezes, até filhos.
No trabalho, com o tempo, as pessoas galgam cargos de maior responsabilidade
o que diminui o tempo e, portanto, ocorre uma sumida da noite e conseqüentemente
do forró.
Se não houvesse essa propalada renovação,
o movimento do forró não teria durado nem dois anos, mas, graças
a esse povo “novo”, estamos há dez anos, sem perspectivas de enfraquecimento
ou redução.
É claro que pessoas recém chegadas
a qualquer tipo de grupo acabam, de alguma forma, “incomodando”. Grupos costumam
ter “regras”, mesmo sem nunca tê-las estabelecido. É como um código
de comportamento por tempo de convívio. Alguém que acabou de chegar
não está acostumado e não o conhece.
Esse incômodo pode acabar muito rápido.
Bem recebida e contente com o lugar, as pessoas podem se adaptar mais facilmente
e, num futuro bem próximo, fazer parte de toda essa festa tão gostosa
que vem acontecendo de quarta a domingo no Canto da Ema. E, mesmo que não
façam parte, o salão é grande e não existe apenas
uma maneira de curtir a balada. Podem co-existir vários grupos diferentes,
que curtem e aproveitem a mesma coisa, embora de maneiras distintas.
Existem, entretanto, algumas coisas que incomodam
a todos indistintamente, mas com o tempo também essas questões
serão resolvidas. As pessoas vão entender que não devem
ficar parados na pista de dança, que devem tomar cuidado com quem está perto
para não machucar outros em uma manobra de lambada ou salsa, tão
freqüente hoje em dia no forró. Vão entender também
aqueles poucos rapazes que de vez em quando aparecem e acham que segurar a menina
ou passar a mão no cabelo dela quando ela passa, não vai servir
para conquistá-la...
Tudo isso requer tempo; talvez já na
segunda vez as pessoas aprendam mais. De qualquer forma, é sempre bom
ver caras novas no forró.
Trabalho semanalmente há dez anos
com o ritmo, se contar os anos anteriores em que fazia festas trimestrais de
forró, soma-se quase quatorze anos. Já pensou se tivesse ficado
só naqueles freqüentadores do início? E vocês, há quanto
tempo vêm ao forró? Há dois, três, sete anos? Para
mim seriam novos, para mim, e para mais um monte de gente que vinha naquele tempo.
Não me lembro de ficarmos reclamando da chegada de vocês.
Pelo contrário. Que bom que vieram
e torço para que tragam amigos. Não só pela questão
comercial, como alguns adorariam alfinetar, mas porque gosto de conhecer pessoas
novas e, principalmente, para que mais e mais pessoas passem a conhecer e a gostar
de forró. Nosso ritmo querido praticamente sumiu nas décadas de
70, 80 e parte da de 90. Espero e luto para que isso nunca mais volte a acontecer.
Quando comecei a freqüentar forró,
por volta de 1988, quase não tínhamos chance de ir a lugares dançar;
os poucos que havia eram em bairros distantes do centro. Havia um, o Panelinha
Baiana, em Pinheiros, reduto de domésticas e garçons, onde costumava
ir. Lá, sempre fui bem recebido, sem discriminação por parte
de ninguém. Alguns achavam estranho que alguém tão jovem
e com roupas e jeito um pouco diferente, gostasse de forró.
Hoje, nas sextas e sábados do Canto
da Ema, em que temos público de todas as faixas etárias, classes
sociais, credos, raças e etnias, gente com modos de se vestir e comportamento
tão diversos, ocorreu de alguns “jovens”, porém assíduos
freqüentadores da casa, reclamarem.
Entendo, mas sempre achei que o forró tem
mesmo essa cara. A cara da mistura, a cara da miscigenação. A cara
do Brasil!
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