Foi
nesta data, 13 de dezembro, que tudo começou.
Era o ano de 1912 e pouco se sabia da cultura
nordestina. Ela já existia, mas ainda não estava formada de maneira que pudesse
ser divulgada para o resto do país.
O Brasil, país pobre, tinha no Nordeste
uma de suas áreas mais miseráveis, e tudo era voltado para agricultura. Era assim
na primeira década do século e assim continuou nas seguintes, nos anos 30 e 40.
Devido a isso, a maioria das manifestações culturais tinham como inspiração,
ou motivo, o plantio e a colheita e, por vezes, a religião.
Luiz Gonzaga, nascido em 13 de dezembro
de 1912, cresceu mergulhado nessa cultura tendo acompanhado tudo.
No início dos anos 40, o jovem pernambucano
de Exu, naquele momento radicado no Rio de Janeiro, relembrou, a pedido de alguns
estudantes cearenses, grande parte das melodias aprendidas na infância: Pronto,
estava criado o baião!
Foi esse o primeiro e mais importante passo
para a popularização e disseminação da cultura nordestina. Luiz Gonzaga não só tocava
as melodias da região, como cantava as letras que descreviam os costumes nordestinos
e vestia o chapéu de couro e o gibão, peças tradicionais do vestuário da região.
E, mais do que tudo isso, encarregou-se de ser o grande porta-voz da cultura
nordestina.
Daí para diante, entre idas e vindas, decadência
e apogeu, muitas voltas após a sua morte, Gonzaga é hoje considerado um dos grandes
nomes da nossa música. Criador de um ritmo, divulgador de uma cultura, ele gravou
e compôs uma infinidade de discos e músicas que fazem parte da memória coletiva
e afetiva deste país. Da mesma forma que todo o povo brasileiro conhece o choro
“Carinhoso” e a bossa-nova “Chega de Saudade”, quem – em qualquer ponto deste
país-continente – não conhece “Asa Branca” ou “Vida de Viajante”? Todos as conhecem
e as cantam, mesmo estando ausente das rádios, das TVs. Não bastasse o que fez
em vida, Gonzaga deixou um rastro de seguidores das mais variadas estirpes, gente
de enorme talento que, direta ou indiretamente, foi influenciado por ele. Dominguinhos
puxando a fila, mais Marinês, Elba Ramalho, Alceu Valença, Zé Ramalho, Fagner,
Lenine, Chico César e quase toda a MPB de 1948 para cá.
Hoje, 2005, acabou de ser criado o “dia
do forró”. O dia não poderia ser outro que não o 13 de dezembro, dia natalício
de Luiz Gonzaga do Nascimento.
A importância deste dia já seria clara só pelo
que foi dito acima, mas há ainda mais que isso. Não se trata apenas de homenagear
um dos grandes baluartes da nossa cultura, mas de uma data que visa comemorar
um dos mais importantes e genuínos ritmos brasileiros. Brasileiro sim, porque,
mesmo tendo influência de alguns outros ritmos estrangeiros, o forró, assim como
o coco, o baião, o xote, o xaxado, o arrasta-pé, do jeito como é tocado, é só daqui.
A comemoração do dia do forró não é apenas
uma lei sem importância que um deputado fez para aparecer ou angariar votos.
Foi uma atitude importante e corajosa para que possamos sempre lembrar esse ritmo
que quase sumiu nas décadas de 60 e 70.
Embora alguns critiquem a criação de datas
como essa dizendo que deputados deveriam se preocupar com coisas mais sérias,
seria bom lembrar que a construção de cidadania passa pelo envolvimento dos cidadãos
com as coisas típicas do país onde vivem. O cuidado com as coisas públicas e
culturais de um povo, a construção da educação das pessoas será facilitada se
estas tiverem apego às coisas delas. (Cuidado para não se confundir com táticas
nacionalistas e fascista). Quanto mais valorizarmos nossa cultura, maior será o
espírito de cidadania.
Diferente do dia do sorvete que ajuda apenas
os vendedores de sorvete, o dia do forró servirá para tocarmos e dançarmos muito
um ritmo que é esquecido e discriminado pela mídia; para mostrarmos que o forró é e
continua muito vivo. Será um dia para mostrarmos a nossa cara, para gritarmos
e cantarmos bem alto para todos verem a delícia que é estar agarradinho, chacoalhando
ao som da sanfona, do triângulo e da zabumba. Será um dia para mostrarmos aos
nossos governantes que o Brasil, além de futebol, tem muito mais, tem forró,
tem samba e uma diversidade de ritmos, com qualidade, que nenhum outro país tem.
Este ano, o ano do Brasil na França, nunca
se viu tanto de nossa cultura por lá. Silvério Pessoa e mais alguns artistas
mostraram o forró e puderam comprovar o quanto este é apreciado quando tem chance
de aparecer.
Por tudo isso, queremos convidar a todos
os freqüentadores para estarem aqui no Canto da Ema, no dia 13 de dezembro. Elba
Ramalho, Trio Virgulino, Trio Sabiá, Trio Araripe, Bicho de Pé, O Bando de Maria,
Falamansa e mais uma infinidade de músicos estarão aqui para comemorar conosco.
Chegou a nossa vez de fazer a festa. Um dia para todos nós, forrozeiros.
Parabéns, músicos, públicos, fãs, amantes
e simpatizantes. Parabéns Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, João do Vale, Dominguinhos,
Marinês, Trio Nordestino, Carmélia Alves, Pedro Sertanejo, Osvaldinho do Acordeom,
Elba Ramalho, Azulão de Caruaru, Jacinto Silva, Gilberto Gil, Manezinho Araújo,
Borrachinha, Zé Ramalho, Alceu Valença, Jacinto Limeira, Antônio Barros, João
Silva, Elino Julião, Flávio José, Cecéu, Trio Sabiá, Trio Virgulino, Trio Araripe,
Forroçacana, Adelmário Coelho, Falamansa, Três do Nordeste, Abdias, Zé Calixto,
O Bando de Maria, Ary Lobo, Arlindo dos Oito Baixos, Trio Cristalino, Heleno
dos Oito Baixos, Maciel Melo, Fúba de Taperoá, Trio Xamego, Rastapé, Marinalva,
Chiquinha Gonzaga, Silvério Pessoa, Camarão...
13 de dezembro
Composição: Luiz gonzaga / Zé Dantas
Letra: Gilberto Gil
Bem que esta noite eu vi gente chegando
Eu vi sapo saltitando
E ao longe ouvi o ronco alegre do trovão
Alguma coisa forte pra valer
Estava para acontecer na região
Quando o galo cantou
Que o dia raiou eu imaginei
É que hoje é treze de dezembro e a treze
de dezembro
Nasceu nosso rei
O nosso rei do baião
A maior voz do sertão
Filho do sonho de D. Sebastião
Como fruto do matrimônio
Do cometa Januário
Com a estrela Santana
Ao nascer da era do Aquário
No cenário rico das terras de Exu
O mensageiro nu dos orixás
É desse treze de dezembro
Que eu me lembrarei e sei que não me esquecerei
jamais
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