Dominguinhos
chama-se na verdade José Domingos de Moraes. A rua Domingos
de Moraes não se chama assim por homenagem a ele, mas bem
que poderia... A meu ver, bem que ele merecia ter já seu
nome batizando uma rua ou uma avenida... (por mim, merecia
que mudássemos o nome da Paulista para o nome dele).
Exageros à parte, Dominguinhos é um dos
maiores e mais respeitados músicos da história do nosso país.
Sua bondade, sua tranqüilidade, sua generosidade,
sua genialidade nos comove e cativa. Conheço-o há pouco mais de 10 anos e, de
lá pra cá, posso dizer que nos tornamos amigos. Mas estar em sua presença ainda
me emociona.
Este sanfoneiro, compositor e cantor tem
mais de 30 títulos de CDs e LPs gravados com músicas próprias e parcerias com
gente como: Chico Buarque, Djavan e Gilberto Gil. Reconhecido como excepcional
músico, já acompanhou praticamente toda a MPB, de Roberto Carlos a Lenine.
Já vivi passagens memoráveis ao seu lado,
já vi atuações inacreditáveis e geniais. A primeira delas foi em um encontro
de sanfoneiros, num SESC. Estava lá o campeão mundial de sanfona, um italiano
que tocava mais rápido e com mais notas do que o tempo permitia. Havia também
um francês, com um acordeon mid que só não fazia suco de laranja. Tinha um simpático
americano, clássico, elegante, responsável pela sonoridade dos acordeons nos
meios hollywoodianos. Outros sanfoneiros também participaram, mas foi Dominguinhos,
entoando a sua Lamento Sertanejo quem mais emocionou a todos. Afinal, para que
tanto acorde, para que tanto recurso tecnológico? Com a sua habitual categoria,
nosso representante de Garanhuns misturou técnica com sentimento e fez música,
simplesmente música, da melhor qualidade. A quase unanimidade do público achou-o
o melhor!
Numa outra vez fomos juntos a um estúdio.
Parece-me que um artista, ou uma banda, não me recordo bem agora, precisava de
uma frase de sanfona em sua composição. O diretor artístico mostrou a Dominguinhos
a música, sublinhando a parte em que ele deveria colocar sua participação. Pois
bem, na primeira passagem, de primeira mão, ainda “brincando”, ele fez uma frase
perfeita, genial, linda! Pronto! Estava preparado para gravar. Aí, no momento
da gravação Dominguinhos fez uma outra frase, completamente diferente, tão bonita
ou mais do que a primeira. Pobre e desavisado diretor, se tivesse gravado desde
o “ensaio” poderia ter duas opções. Com um músico dessa categoria tem que se
gravar tudo. E não são só sobre música as grandes histórias.
Uma vez pedi-lhe ajuda para contactar um
determinado artista. Ele tentou, mas diante da dificuldade avisou-me que seria
melhor desistir. Disse, na sua habitual tranqüilidade: "Paulinho, é muito difícil
falar com ele; é artista." Eu, admirado com o que escutava perguntei: "E você,
o que é?" Sem pestanejar, ele respondeu: "Sou sanfoneiro.".
Em uma rádio, durante uma entrevista, perguntaram
a ele se era rico. De cara respondeu que sim, que era rico sim. Tinha um carro
bom que o levava pra onde fosse preciso, um apartamento, bons amigos e uma excelente
família. Haveria riqueza maior que esta?
Sempre que pode e constata o aparecimento
ou desenvolvimento de um grande sanfoneiro, Dominguinhos elogia-os sem medo.
Fala dos colegas com a admiração e respeito de um fã, mesmo que, às vezes, a
recíproca seja ainda mais forte. Estes gestos são sempre sinceros e generosos,
completamente diferente da vaidade oceânica que permeia o meio artístico.
Quando chega 13 de dezembro, aniversário
de nascimento de Gonzaga (e agora também dia do forró), esteja onde estiver,
Dominguinhos pega o carro e vai para Exu, local onde se realiza uma grande festa
comemorativa a seu mestre e amigo. Por não andar de avião , às vezes esse deslocamento
significa 2 ou 3 mil quilômetros.
São várias as passagens, mas o que mais
me chama atenção é a fidelidade ao forró e a Gonzaga. Desde o desaparecimento
deste, Dominguinhos vem segurando, com firmeza de porta-estandarte e jogo de
cintura de mestre-sala, a bandeira do forró. É o nosso maior representante do
gênero, o nosso Pelé, o nosso timoneiro nessa complicada tarefa de manter esse
ritmo que é tão pouco divulgado.
No dia 11 de fevereiro, após a meia-noite,
quando já será dia 12, dia do aniversário de Dominguinhos, no qual completará 65
anos, estaremos todos aqui com ele, e esperamos que toda a nação forrozeira também
esteja para dizer:
Parabéns Sanfoneiro!
(Seria bem legal que os freqüentadores escrevessem
mensagens a ele, prometemos direcioná-las no final do mês. Sugiro o fórum como
veículo.)
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