Acho
essa discussão sempre muito engraçada. A discotecagem é ruim!
Mas ruim para quem? Acho que é ruim para todo mundo porque
todo mundo reclama. Um me procura e fala: Que saco, só toca
xote, xote dá sono. Aí vem outro e fala: Nesse lugar só toca
velharia, cadê a Elba, o Zé Ramalho, o Falamansa? Tem aqueles
que chegam à cabine de som e perguntam: Tem Calcinha Preta?
Vários freqüentadores assíduos me procuram
para reclamar das músicas. Opiniões sempre muito respeitadas já que vêm de pessoas
que estão sempre conosco. Desses uns pedem Azulão, outros Jackson, outros Gonzaga.
Tem os que querem Borrachinha e outros Abdias. Uns pedem para não colocar Jackson
de forma nenhuma, outros só querem Potiguá, Pé de Serra e Classe A, nisso, vem
um e fala que esses trios não têm pegada e pedem Marinês. Nesse momento chega
uma menina e fala que Marinês é um saco e que quer que ponha Trio Nordestino.
Tem também aquele que fala: Pô, aqui no
Canto não toca xote? O rapaz de boné e barba por fazer fala que o Canto da Ema é modinha
porque só toca música nova. O enamorado rapaz sugere uma música bem tranqüila
da Elba enquanto os rapazes querem pedradas de Elino Julião. As mocinhas lindas
querem Zé Ramalho, mas alguns moços pedem Raiz do Sana, já entrando em conflito
com aqueles que querem instrumentais de Gerson Filho e Sivuca. Tem um menino
de sorriso aberto que só quer Dominguinhos e uma espevitada dama que chora por
mestre Zinho e Os 3 do Nordeste.
Ou seja, descobri que temos a pior discotecagem
do mundo porque ninguém gosta. Se ninguém gosta é porque em algum momento todos
devem gostar. Atender 500 pessoas por dia é assim, temos que agradar a todos
desagradando-os a todos os momentos. A maioria das casas elogiadas por terem ótimas
discotecagens já fechou. Sempre me arrependo de não tê-las freqüentado e lá aprendido
um pouco mais sobre forró, mas elas já fecharam... Não deu tempo.
Por fim o que eu gosto pode ser diferente
do que Sicrano gosta que por sua vez é diferente dos Beltranos e que não tem
nada ver com o que o Zé das Couves acha de correto em termos de música.
Tanta divergência me levou a pensar em distribuir
fones de ouvidos para cada pessoa, mas aí como juntar casal já que as músicas
seriam diferentes? Poderia dar por casal, mas aí teriam que ser sempre os mesmos,
pois ficar mudando os fones de ouvido para ouvido não é lá uma coisa muito higiênica,
ainda mais com aquele suor todo.
O que fazer?
Posso pedir a opinião dos “deuses” de plantão
que sabem exatamente o que é bom para todos e deixar que escolham as músicas.
Aí a gente pergunta para o salão: Essa é boa? Uns cem vão aplaudir e dizer euforicamente
que agora sim temos uma boa discotecagem. Uns duzentos vão dizer: Pode ser...
Já que não estarão nem ouvindo. Outros cem não vão opinar porque estavam bebendo,
conversando, dando beijo de boca, no banheiro e coisas do tipo. Por fim, outros
cem vão reclamar, dizer que as músicas são péssimas que precisamos de novas e
melhores músicas. Nisso mudamos o “Deus” e as opiniões vão se inverter, até porque
as pessoas se revezam nos banheiros e porque não dizer nos “beijos de boca”.
Outro dia expliquei pela enésima vez o sistema
da discotecagem para algumas meninas. Falei que tocamos dois xotes e depois duas
músicas rápidas que podem ser forró, baião, coco ou xaxado e, a cada 12 músicas,
toca apenas um arrasta-pé (gostaria que fosse mais, mas sou apenas mais uma opinião).
Mostrei também que mais de 60% da discotecagem é composta com os clássicos do
forró: Luiz Gonzaga (mais de 70 músicas), Dominguinhos (mais de 70 músicas),
Jackson (por volta de 40 músicas), Marinês (em torno de 40 músicas), Trio Nordestino
(50 músicas), Jacinto Silva (20 músicas) e por aí vai. Sobraram umas 300 músicas
divididas entre outros nomes do forró. Tudo isso foi falado e enquanto conversávamos
provei a minha teoria mostrando a cada música que tocava aquilo que acabava de
ter explicado. Elas concordaram com o que eu disse, mas finalizaram: Mesmo assim
a discotecagem é ruim!
O que elas queriam? Já sei! Eram do grupo
das “pedradas”. Aqueles que só querem aquilo que é super difícil de achar e ninguém
têm. Aquelas músicas rápidas de cantores e compositores impossíveis. Aí tenho
que explicar que o Canto da Ema é uma casa comercial, que não pode atender apenas
e plenamente os freqüentadores queridíssimos, mas especializados demais para
um local com tantas pessoas. Gostaria de atendê-los e tento fazê-lo na medida
do possível, mas e o resto das pessoas?
A vida é assim. O ser humano insiste em
ser diferente um do outro, por isso temos opções. Já pensou se Jacinto Limeira
e Edson Duarte fossem tão superiores assim, que sucesso fantástico teriam na época
deles ao contrário das grandes referências?
Vamos tomar cuidado para não reverenciar
as pessoas erradas, cada um tem seu gosto, mas Gonzaga, Jackson, Dominguinhos,
Marinês, João do Vale e Trio Nordestino foram os maiores sucessos e as grandes
referências da música nordestina e são justamente eles os que mais são tocados
no Canto. Nesse caso independe de gosto, basta um olhar frio e objetivo, e por
que não, respeito!
Adoro forró e fiz comigo mesmo um pacto
de que iria levar adiante esse ritmo que é praticamente a minha vida. Quis fazer
uma casa que durasse muito tempo e que atraísse o maior número de pessoas possíveis
para acabar com aquilo que sempre sofri trabalhando com este ritmo, o preconceito.
Quando tinha a idade da maioria de meus freqüentadores eu não tinha as opções
que eles têm, pois forró quase não tocava. Não vou colocar tudo a perder limitando
ao passado as grandes obras e fechando as portas para o que tem de novo. O equilíbrio é sempre
o melhor. Nunca esquecer o passado, mas sempre cuidando do presente e fertilizando
o futuro.
Tem muita gente fazendo coisa boa, com uma
sonoridade diferente porque o tempo mudou.
O Canto da Ema trouxe Marinês, Dominguinhos,
Trio Nordestino, Chiquinha Gonzaga, Genival Lacerda, Edson Duarte, João Silva,
Mestre Zinho, mas também Falamansa, Rastapé, Bicho de Pé, O Bando de Maria, Arleno
Farias e etc. Temos muito orgulho disso em ambos os casos.
Escutamos todos os dias nas rádios axés,
sertanejos, MPB e tantos outros gêneros porque eles estão sempre se modernizando
e lançando coisas novas. Nem sempre boas, mas muitas vezes sim. Nós temos que
abrir nossas cabeças, procurar novas bandas, trios e formas de tocar forró. Sem
nos perder, mas por que não nos modernizar também?
Quem vive de passado é museu, quem vive
apenas de futuro não tem base, estrutura, história. E graças sabe-se lá a quem,
o forró tem os dois e tem mais, um presente forte e contagiante. Por isso estamos
discutindo, por isso tantas opiniões contrárias ao que fazemos e muitas a favor.
Tenho a certeza que enquanto estivermos
desagradando em parte das musicas a todos, estamos no caminho certo.
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