Canto da Ema Canto da Ema

E d i t o r i a l


Samba X Forró

       Há algum tempo, Hermano Vianna irmão de Herbert Viana do “Paralamas do Sucesso”, lançou um instigante livro chamado “Mistério do Samba”. O autor explicou levando em conta aspectos antropológicos e sociológicos, sobretudo abordando a questão da miscigenação, os fatores que levaram um ritmo antes veiculado às classes baixas, meretrício e bandidos, a virar elemento de identidade nacional.
       Tudo muito claro, muito bem esclarecido e embasado, em uma pesquisa fascinante, mas... e o forró?
       Se podemos entender tão bem os motivos que levaram o samba a tal patamar qual seria a explicação para que o forró não tomasse um rumo tão próspero e parecido?
       Não que o forró esteja em baixa ou “mal das pernas”, mas sem dúvida nenhuma e com uma pontinha de inveja, o samba, o maravilhoso samba, sempre ocupa um lugar digamos mais majestoso que o forró.
       Não quero aqui, presunçosamente e pretensamente, tentar explicar isso até porque seria necessária uma longa explanação histórica do caminho do forró percorrido até os dias hoje. O que pretendo é apenas lançar alguns pontos que poderiam ser discutidos para tentarmos chegar, quem sabe, a alguma explicação pelo menos razoável.
       A primeira e mais plausível é que o samba é anterior ao forró. O primeiro apareceu no início do século XX, tendo como primeiro registro a música “Telefone”, gravada por Donga, em 1917. Já o primeiro baião gravado foi a música homônima “Baião”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, gravada por 4 Ases e 1 Coringa, em 1946, quase 30 anos depois do primeiro samba.
       Outro motivo pode estar na origem e sobretudo na “cidade de ressonância” de cada um dos ritmos, enquanto o samba usou o Rio de Janeiro como principal local de difusão da cultura brasileira como base e cidade de divulgação e naquela época ainda capital do Brasil, o forró foi sempre nordestino, pobre e visto com preconceito.
       Outra questão importante de se levantar é com relação ao ritmo e temática das letras. O samba tem uma “tristeza” que o forró não tem. Tem, mas em menor escala , são poucas as músicas que trabalham essa “tristeza”. Lembram Caetano e Gil? - “A tristeza é senhora, desde que o samba é samba é assim...”. No forró, em alguns casos existe, mas é diferente.
       Outra possível vantagem do ritmo de Cartola, Ataulfo, Donga e João da Baiana é a possibilidade do dançar só. Num país com mulatas(aqui não me refiro apenas à cor da pele ou à mistura de raças, mas à sensualidade nela implícita e explícita visto que, no Brasil, algumas loiras são “mulatas”) o dançar “só” faz uma grande diferença. O parceiro esconde a companheira, impede de vermos na plenitude o jeito, o trejeito e até aquele “sem jeito” tão sedutor.
       O samba é simples e fácil como o futebol, se faz na caixinha de fósforo, na mesa, na palma no gogó.
       Enfim, existem mil explicações, o samba alcançou com mérito tal posição, mas temos que explorar nossas vantagens, enaltecer nossos predicados e fazer reluzir nossas principais características, entre elas:
       O forró é variado, é composto por uma série de ritmos que se misturam, se intercalam, sem cansar nem aborrecer;
       A ligação nordestina nos dá vantagem durante o verão. O influente formador de opinião do Sudeste vai em massa para as praias baianas, pernambucanas e cearenses e lá poderiam conhecer as delícias de cantar e dançar junto os ritmos nativos (desde que lá os encontrasse);
       No forró dançamos juntos, numa alquimia parecida com o bolero, o xote, nos propicia intimidades e proximidades impensáveis em qualquer outro ritmo;
       As letras do forró, se não tem a tal “tristeza”, tem a melancolia do nordestino, a saudade da terra, o sofrimento da seca e a jura de amor inocente e sincera típica da região de origem como em “Tenho Sede” de Dominguinhos e Anastácia:“A planta pede chuva quando quer brotar, o sol logo escurece quando vai chover, meu coração só pede o seu amor, se não me deres posso até morrer”.
       São muitas as qualidades do forró, assim como as do samba. Espero que possamos discutir essas questões e termos um forró tão forte quanto é o samba, Sem que ele, o samba caia, afinal somos brasileiros e que outro povo pode ser tão feliz de ter dois ritmos como os que temos.
       Viva o samba! Viva o forró!

Paulinho Rosa
Novembro/2006

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