Em
país de terceiro mundo a vida dos mártires
culturais é sempre complicada. Lembremos Gonzaga
que saiu para o mundo para criar o baião e em conseqüência
o forró, o xote e etc., depois de uma briga com
o “coronel” da região. Fugiu porque resolveu enfrentar,
em nome de seu amor, aquele que tinha mais poder na região
e que não queria ver seu rebento (sua filha) com
um pretenso músico, e ainda por cima pobre e negro.
Gonzaga morreu pobre, pois se preocupou mais em divulgar
a cultura do seu Nordeste do que em fazer fortuna.
Pouco depois, em 1933, outro episódio,
também triste, abriu a porta para que outro negro, outro nordestino pobre,
outro gênio de nossa cultura pudesse desbravar este país e mostrar
sua arte: João do Vale.
Nascido em Pedreiras, pequena cidade do
estado do Maranhão, o pequeno João teve que sair da escola para
abrir vaga para um filho de político da região. Esse episódio
marcou profundamente sua vida, sua personalidade e a sua obra.
João era pobre e preferiu enfrentar
as durezas da cidade grande a aceitar as injustiças da política
regional.
Acabou mudando–se para o Rio de Janeiro
onde virou ajudante de obra.
Sensível, inteligente e preocupado
com as questões sociais, nosso poeta passou a compor baiões e sambas.
Por não saber escrever João
guardava na memória tudo o que fazia e ia aos programas de rádio
apresentar aos artistas a sua arte.
Em 1953 obteve seu primeiro sucesso quando
Marlene gravou “Estrela Miúda”, um “baiãozinho” seu, como gostava
de dizer. Um dia, durante o trabalho em uma obra, o rádio estava ligado
e ao ouvir com os colegas a sua música, comentou que era uma composição
feita por ele. Diante da gargalhada geral e da incredulidade de todos, desistiu
da profissão e preferiu se dedicar ao que mais gostava: a música.
O primeiro sucesso abriu as portas para
que outras músicas tivessem êxito e, em 1964, formou ao lado de
Zé Ketti e Nara Leão o elenco do show OPINIÃO. Foi nesse
espetáculo que estourou a sua música “Carcará”. Era a época
da ditadura, época de repressão e medo, suas letras eram críticas
e tinham a força e o clamor do povo diante da injustiça e falta
de liberdade.
João levou a diante sua vida, entre
cachaça, música e forró.
Queridíssimo, protagonizou durante
um tempo o Forró Forrado no Cadete, Rio de Janeiro. Foram bailes de forró que
ele comandava sempre com a participação de colegas músicos,
como Fagner, Clara Nunes e etc.
João gravou apenas um único
disco solo, “O Poeta do Povo”, e teve mais dois discos gravados com a ajuda de
Chico Buarque, discos com músicas de João cantadas em duetos com
grandes nomes da nossa música
João foi à Angola e Cuba,
em caravanas com o mesmo Chico Buarque, além de Clara Nunes e outros artistas.
A poesia de João continha referências
claras à sua região e sempre uma preocupação social.
Foi ele um dos primeiros a gravar músicas com duplo sentido, com uma classe
invejável, sem deixar, entretanto, de serem engraçadas.
O ápice de João foi curto,
em seu principal momento chegou a ser gravado por inúmeros artistas da
MPB e fez parcerias importantes, entre as quais com Luiz Vieira, que foi a que
mais se destacou. Mas, ao mesmo tempo em que conseguia êxito, as conseqüências
da falta de estudos e estrutura deixaram latentes a falta de preparo para administrar
o que ganhou, suportar o sucesso e não cair na bebida.
João faleceu em 6 de dezembro de
1996, paralítico e quase cego, vítima de derrame, havia sido praticamente
esquecido.
João morreu na miséria, mas
deixou um legado de valor inestimável para a nossa música. O Canto
da Ema, Pisa na Fulô, Carcará, Peba na Pimenta, De Teresina a São
Luiz, Na Asa do Vento, são apenas alguns exemplos da qualidade emocionante
de sua obra.
Este mês completa 10 anos de seu falecimento.
Se não é uma data para se comemorar, é uma data para ser
lembrada e, principalmente, para que divulguemos a sua obra.
João fez muita coisa, mas a composição
mais significativa e que de certa forma resume e demonstra sua genialidade e
sensibilidade é a sua autobiográfica: Minha História:
"Seu moço, quer saber, eu vou
cantar num baião
Minha história pra o senhor, seu
moço, preste atenção
Eu vendia pirulito, arroz doce, mungunzá
Enquanto eu ia vender doce, meus colegas
iam estudar
A minha mãe, tão pobrezinha,
não podia me educar
A minha mãe, tão pobrezinha,
não podia me educar
E quando era de noitinha, a meninada ia
brincar
Vixe, como eu tinha inveja, de ver o Zezinho
contar:
- O professor raiou comigo, porque eu não
quis estudar
- O professor raiou comigo, porque eu não
quis estudar
Hoje todos são “doutô”, eu
continuo joão ninguém
Mas quem nasce pra pataca, nunca pode ser
vintém
Ver meus amigos “doutô”, basta pra
me sentir bem
Ver meus amigos “doutô”, basta pra
me sentir bem
Mas todos eles quando ouvem, um baiãozinho
que eu fiz,
Ficam tudo satisfeito, batem palmas e pedem
bis
E dizem: - João foi meu colega, como
eu me sinto feliz
E dizem: - João foi meu colega, como
eu me sinto feliz
Mas o negócio não é bem
eu, é Mané, Pedro e Romão,
Que também foram meus colegas , e
continuam no sertão
Não puderam estudar, e nem sabem
fazer baião"
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