Mais uma voz se calou aqui na aldeia do forró, uma voz forte, importante, imponente, uma voz do início de tudo, perturbadora, de resistência, mas ao mesmo tempo doce, cativante e inconfundível. Estou falando de Maria Inês Caetano de Oliveira, a Marinês, Rainha do Xaxado, a grande cantora pernambucana.
Marinês não foi só uma grande cantora, além de técnica, um timbre lindo e uma potência de voz impressionante, era extremamente carismática e atenta ao que ia gravar, seletiva e zelosa escolhia grandes compositores para construir sua discografia. Não foi à toa que foi uma das principais intérpretes de João do Vale, com letras sempre fortes e em defesa do povo nordestino.
Por tudo isso e também por ter acompanhado Luiz Gonzaga no início de carreira, ganhou dele o título de rainha do xaxado.
Sua maneira de tocar triângulo sobre algo de madeira (geralmente cadeira ou banco), fazendo um ritmo muito bem marcado de xaxado, é inesquecível.
Marinês se foi deixando uma grande tristeza, mas também milhares de admiradores e algumas discípulas que devem e vão saber continuar a obra dela.
Esta é a hora de fazermos uma ampla e contundente reflexão sobre o forró e dos rumos que devemos tomar, pois em menos de dois anos, perdemos além de Marinês, Elino Julião, Coroné, Sivuca e vários outros nomes de menor expressão, mas também importantes para o ritmo.
Em um meio onde temos a tendência de apenas valorizar os nomes do passado, é grande a preocupação agora que eles estão nos deixando. Volta e meia retornam as questões a respeito do forró, se é mais uma modinha, uma febre de momento ou um ritmo eterno e duradouro.
Será apenas passageiro se nós, os amantes dele, deixarmos.
Luiz Gonzaga, Marinês, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino, João do Vale, e tantos outros foram maravilhosos, mas temos aí uma boa linhagem de sucessores que se não cuidarmos direito e dermos o devido valor vão acabar desistindo. Já não contamos com o apoio da mídia, nem dos empresários, de possíveis patrocinadores e nem das gravadoras. Se não nos juntarmos e começarmos a divulgar nossos jovens e promissores talentos acabaremos esquecidos.
O caso mais assustador é o do Forroçacana, independente dos motivos que levaram a banda a tirar “férias por tempo indeterminado”, isso com certeza não teria ocorrido se estivessem fazendo muitos shows por cachês condizentes com o tamanho que a banda ficou. Embora fosse a mais cultuada de todas as bandas que apareceram, ainda assim tiveram dificuldade de se manterem economicamente viável. Foram vários os motivos: o péssimo momento das gravadoras, a falta de apoio da mídia com o ritmo, o preconceito das rádios e televisões em apostarem no ritmo, mas acho que, sobretudo a falta de união que nós forrozeiros temos, e pior, a exagerada estima dos mais aficionados pelo passado, esquecendo de valorizar o presente. Se os dj’s colocassem um pouco menos de Luiz Gonzaga, Marinês, Jackson do Pandeiro, Jacinto Silva e outros, e dessem mais valor ao Forroçacana, O Bicho de Pé, Rastapé, O Bando de Maria e outros em uma discotecagem mais equilibrada, realçando o passado sem se perder do presente e futuro, o legado de Marinês estaria mais garantido e poderíamos dizer que com certeza ela partiu e deixará uma saudade eterna.
Mas será que isso vai realmente ocorrer?
De qualquer forma nós do Canto da Ema e todos aqueles freqüentadores que tiveram a possibilidade de vê-la de perto, em duas apresentações antológicas, vão morrer de saudades e uns poucos que estiveram mais próximos e a conheceram pessoalmente vão sentir muito mais.
Em homenagem à obra e à lembrança dela e agindo de modo a mantê-la sempre viva, acho que devemos começar a valorizar as bandas atuais. Agora é hora de trazer à luz suas discípulas. Que venham: Janaina (Bicho de Pé), Maria Paula (O Bando de Maria), Thaís (Trio Juriti), Isabela (Menina do Céu), Maira, Liv Moraes e etc.
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